10/2/07
EXPEDIÇÃO MAUÉS

* Ademir Ramos
As estradas naturais da Amazônia são os seus grandes rios e tributários definidos por sua diversidade cultural, bem como por suas dimensões superlativas. Iniciado nesses estudos e por ter centrado as minhas pesquisas entre os sateré-mawé fui convidado a integrar a Expedição Maués, sob a coordenação de Humberto Michiles, Deputado Federal do Amazonas, Filho de Eunice Michiles (ex-senadora) e Darcy Augusto Michiles.
A missão tinha por fim documentar a homenagem que a Prefeitura de Maués – distante em linha reta a 267quilometros de Manaus e 356 km por via fluvial – faria ao Sr. Darcy Augusto Michiles, filho de Maués, ex-presidente da Câmara Municipal e ex-Deputado Estadual do Amazonas. Para isso, me integrei a Expedição junto aos demais convidados: Deputado Estadual Josué Neto, Murilo Holanda, Saulo Michiles (neto do homenageado), Rita Filomena da Rocha Fonseca (Filó), professora Lúcia Costa e o professor Paulo Ferraz.
No dia 26, sexta-feira, às 17 horas a Expedição Maués saiu de Manaus, capital do Estado do Amazonas em dois carros rumo a Itacoatiara, chegando ao Município às 21h30, onde se pernoitou e pela manha, no dia 27, às 7h embarcou-se na lancha Exp. Gustavo, medindo 12m80cm, movida por um motor Mercedes, de 160 cavalos, como bem se diz por aqui, em direção a Maués, que estende seus limites até o Estado o Pará.
No curso desse trajeto, em tempo de chuva, a expedição documentou a beleza do paisagismo local, muito bem definida pela enchente dos rios e pela presença de troncos de árvores e touceiras de canarana - um tipo de capim - a circular rio abaixo decorrente das terras caídas. Esse fenômeno tão presente no Amazonas, Solimões e outros rios em formação, fazem com que os homens regulem suas economias, interiorizando-se ano a ano, mata à dentro para proteger suas criações, plantações e a sua própria moradia.
Admirado mais uma vez pela densidade de nossa diversidade cultural quanto à intervenção do homem a natureza, a expedição foi descendo o Amazonas, passando pelo paraná do Ramos, e subindo o Iraria (Urariá ou Uariá), quando o coordenador da Expedição assumiu o leme, orientando-o em direção ao furo do Baixio (Cururu). Pois, em época de cheia os furos são atalhos que os nativos fazem para encurtar caminhos e livrar-se das tempestades em alto rio.
Por esse furo de rio, Humberto Michiles fez com que se conhecesse o “cantinho” da família. Pois, a expedição foi parar no Centenário, lugar sagrado para a família Michiles, construído pelo seu bisavô, conhecido politicamente, como Donga, - José Batista - que também foi Prefeito de Maués, na década de 1950, assim como Humberto Michiles também foi na década de 1990.
Em depoimento, publicado recentemente, na obra da jornalista Henrianne Barbosa, Eunice Michiles, ex-Senadora Federal pelo Amazonas, presta um testemunho à história do Amazonas, narrando os conflitos de morte entre as oligarquias em Maués. Segundo a senadora, a conjuntura era a seguinte: “Michiles versus duas famílias rivais alternando-se no poder em Maués. Os primeiros pertenciam à União Democrática Nacional (UDN), antivarguista, a favor da democracia liberal; já os opositores políticos apoiavam a ditadura de Getúlio Vargas, com o Partido Social Democrático (PSD), aliado ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) no combate à rival UDN no período 1940-1960”.
A expedição chega a Maués às 16h30, do dia 27/01, sábado, e às 18 horas participa das homenagens feitas a Darcy Augusto Michiles, assistindo em DVD depoimentos que falam da personalidade, do valor e do espírito público do homem político, o Cururu, como o povo de Maués o chamava.
O Cururu, Darcy Michiles nasceu no interior de Maués, em Ponta Alegre, em 1912 e morreu no dia 06 de junho de 1998, em São Paulo, sendo sepultado em Maués junto aos seus familiares.
Darcy, segundo os relatos da Dona Eunice, escapou da morte por pouco. Perdera a eleição para a Prefeitura de Maués e caminhava cabisbaixo [...]. Com um punhal na mão, o estranho, meio bêbado tentou atingir Darcy. No entanto, já de olho na movimentação um guarda segurou a mão do capanga venceu a luta e impediu o crime. ‘[...] Darcy era uma pessoa muito boa, e levou o bêbado para nossa casa. Descobriu que ele havia sido contratado para fazer o ‘serviço’. Mandou a empregada dar um prato de sopa... e ficou por isso mesmo”.
O Centro Cultural Darcy Michiles inaugurado pela Prefeitura de Maués, no dia 27 de Janeiro de 2007, é na verdade um condomínio cultural com 400 m² abrigando a Biblioteca Almir Gomes de Almeida (poeta), com acervo de mais cinco mil títulos, Videoteca Ademar II (jovem empreendedor), a Pinacoteca e a Sala de Inclusão Digital com 20 computadores, bem como, futuramente, a construção do teatro para realização das conferências e manifestações artísticas e culturais do Município.
No momento, estará também, sendo a Sede da Secretaria de Cultura e Turismo do município. Com todos esses equipamentos mais o capital intelectual artístico e cultural local, as políticas públicas se fortalecem, fomentando novos leitores, bem como a participação dos mauesenses na construção de um projeto cultural afirmativo, dignificando seu passado e vislumbrando um novo amanhecer.
* É antropólogo e professor da UFAM e supervisor do Núcleo de Cultura Política do Amazonas (NCPAM). Email: ncpamz@gmail.com
- Postado por: Comissão Editorial às 12h17 PM
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8/2/07
RAZÕES PARA FAZER REFORMA AGRÁRIA

Imagem: www.galizacig.com/
* Kleiner José Frutuoso Michiles
Nenhum debate suscita tanta paixão quanto àquele que trata da reforma agrária. E isso acontece justamente por ela ser um tema que envolve muitos interesses e tem a ver com fatores econômicos, políticos e acima de tudo com justiça.
A luta pela terra no Brasil é muito antiga e remonta ao término da escravidão ou, até um pouquinho antes, quando se publicou a lei 601 de 1850, que tinha como objetivo principal, implantar no Brasil, pela primeira vez, a propriedade privada da terra.
Tal lei pode ser considerada como aquela que consagra e regulamenta o latifúndio como estrutura fundiária no Brasil, além de impedir que os descendentes de escravos e os libertos tivessem acesso a terra, para formar o grande contingente de trabalhadores sem terra que conhecemos hoje.
A elite agrária brasileira, conservadora por “natureza”, nunca aceitou a idéia de ver, proprietários do bem que conferem poder e riqueza (a terra) a pessoas que antes eram apenas consideradas como extensão de sua propriedade, agora pousarem de proprietários. Isso nunca!
O ranço e o ódio que essa elite alimenta contra os trabalhadores são frutos do modelo de organização do espaço agrário brasileiro, implantado pelos portugueses com a colonização cuja mentalidade administrativa era de cunho feudal, apesar de orientar a produção de açúcar para o mercado externo. Segundo Raymundo Faoro (jurista e autor da obra Os donos do poder), o fazendeiro de hoje vê no trabalhador a figura do escravo emancipado e, por isso, acha que não lhe deve respeito algum ou muito pouco, somente o limite do necessário para a produção de sua riqueza.
Só este motivo já seria mais que suficiente para a realização da reforma agrária; entretanto, existem outros também muito importantes, como, por exemplo, o econômico. Agricultura familiar no Brasil, aquela produzida pela pequena e média propriedade, que pode ser tomada como modelo para uma reforma agrária, que contemple os que dela necessitam, responde hoje por 38% do valor bruto da produção agropecuária brasileira, 84% dos estabelecimentos rurais e por 77% da mão-de-obra do campo. Produz 84% de mandioca, 67% do feijão, 58% dos suínos, 54% da bovinocultura de leite, 49% do milho, 46% do trigo, 40% de aves e ovos e 31% do arroz que chegam à mesa dos brasileiros. Cerca de 80% dos municípios do país são essencialmente rurais, abrangendo 50 milhões de pessoas. (dados do ministério da agricultura, 2006).
Como se observa, quase tudo que se consome neste país, provém da pequena e média propriedade. Os latifúndios, mesmo considerados produtivos, trabalham com monoculturas voltadas apenas para a exportação. Além do mais, é notório que a grande propriedade é fator de concentração de renda e riqueza. Em muitas regiões, em particular nas zonas pecuaristas, ela produz um esvaziamento do meio rural e inibe o desenvolvimento local.
O fortalecimento e a criação de espaços para a pequena propriedade familiar ao lado da propriedade patronal de tamanho médio, são certamente fatores de dinamização das economias regionais, pois geram emprego e renda, apropriada e gasta no local. Ambos contribuem para o desenvolvimento dos mercados de bens e serviços em geral.
Uma boa reforma agrária também contribuirá para descongestionar as grandes cidades, inibir o êxodo rural, incrementar a produção de alimentos, diminuir consideravelmente a violência no campo e, acima de tudo, trazer cidadania e justiça para essa massa de trabalhadores, que há muito sonha com isso como coroamento de uma longa luta. Por isso, a efetivação da reforma agrária é condição sine-qua-non (indispensável) para que se possa corrigir um pouco das injustiças praticadas contra os trabalhadores ao longo desses séculos.
* Estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Contato: ncpamz@gmail.com
- Postado por: Comissão Editorial às 12h07 PM
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6/2/07
TEORIAS DA CIÊNCIA POLÍTICA CONTEMPORÂNEA

* Breno Rodrigo de Messias Leite
Atendendo ao pedido de nossa Web leitora Noemia Varela que nos solicitou um artigo que destacasse as principais teorias da Ciência Política contemporânea, pretendo apontar e ensaiar alguns comentários sobre cada uma delas.
Desde já, podemos dizer que existem essencialmente cinco importantes teorias da Ciência Política que são bastante usadas pelos cientistas políticos brasileiros e latino-americanos para a investigação e interpretação do fenômeno político nas sociedades em mudança ou de democracia estruturalmente consolidada.
(1) A Teoria da escolha racional talvez seja a teoria mais avançada e mais utilizada na formulação dos estudos em Ciência Política nos dias de hoje. As teorias da escolha racional podem ser subdivididas em duas correntes:
De um lado, a teoria da ação coletiva, cujos principais teóricos são Mancur Olson Jr. (The logic of collective action) e Anthony Downs (An economic theory of democracy); e do outro lado, a teoria dos jogos de fundamentação econômico-matemática, que é discutida tantos nos estudos militar-estratégicos, quanto no campo da engenharia política.
Podemos dizer que a teoria da escolha tem um princípio bem claro: desenvolver uma abordagem teórico-metodológica. Tal abordagem deve analisar as possibilidades das preferências/interesses/escolhas/decisões (são as palavras-chave) dos agentes políticos na sua interação com o conjunto da coletividade. Em outras palavras, a correlação de forças entre as estruturas, os sujeitos e mesmo os países numa dada situação de conflito e disputa de interesses direcionados a conquista do poder político, podem ser racionalmente tomadas.
(2) O marxismo analítico, não muito distante das teorias da escolha racional, vislumbra aproximar as contribuições do materialismo histórico com o individualismo metodológico à la racionalista. Além disso, o marxismo analítico tem conseguido conquistar espaços na atual discussão acadêmica sobre os processos de transição e democratização na América Latina. Seus principais autores são A. Przeworski, J. Roemer, J. Elster e muitos outros.
(3) O Institucionalismo político ou neo-institucionalismo se propõe a abordar o fenômeno político a partir da sua variável institucional. Não interessa, do ponto de vista do neo-institucionalismo, os sujeitos atomizados, suas idéias, suas ideologias..., mas sim a forma como as instituições são capazes de canalizar tais manifestações e torná-las efetiva no jogo político. Daí o interesse da corrente teórica em analisar o processo político à luz da institucionalização (p. ex.: partidos, parlamento, MP, poder judiciário, sindicatos etc.) da práxis política.
(4) Dos anos 70 para cá, cada vez mais, a Análise schumpeteriana do procedimento político tem conquistado credibilidade nas análises políticas na América Latina. Ao contrário da dogmática grega de democracia (“governo do povo, para o povo...”), Joseph Schumpeter (economista checo), em sua obra-prima Capitalismo, Socialismo e Democracia (que recomendo calorosamente!) propõe uma democracia de incertezas, de confrontação, de altos e baixos, uma vez que a democracia, e, por sua vez, todo o sistema político que a constrói, não é nada mais nada menos que o governo dos políticos. No momento em que os políticos são tolhidos de sua representatividade, aí está a nascer um regime antidemocrático. Por esta razão, toda ditadura que se preze deve, como primeira medida, fechar o parlamento e cassar direitos políticos (vide o Golpe civil-militar-católico de 1964 no Brasil).
(5) E finalmente, a Teoria da cultura política que é na verdade uma aproximação da Ciência Política com suas primas distantes, a Sociologia e a Antropologia. O propósito básico é à luz da Ciência Política (refiro-me ao método estritamente) abordar assuntos que não são da Ciência Política Clássica, ou seja, pretende-se introduzir novas temáticas como, por exemplo, feminismo, movimentos ambientalistas, étnicos, migratórios, agrário-urbano, cultura popular etc. A cultura política acaba, em outros termos, mesclando as três grandes áreas das Ciências Sociais num só discurso – na Ciência Política.
Nesse sentido, portanto, o propósito desse artigo, que só nasceu a partir da demanda de nossa leitora, só vem a reforçar a nossa convicção na condição de Núcleo de Cultura Política do Amazonas, que se propõe a ser uma instituição de Pesquisa e de controle sócio-institucional. O fato de uma web leitora nos ter solicitado tal empreendimento mostra que o NCPAM, além de ser um espaço de discussão de idéias, é na verdade um espaço de propostas conjuntas direcionadas ao aprimoramento do conhecimento, da cidadania e da democracia popular. Não é à toa que a nossa página eletrónica tornou-se um projeto de Extensão na UFAM.
* Coordenador geral de pesquisas do Núcleo de Cultura Política do Amazonas; graduando de Ciências Sociais e Econômicas da Universidade Federal do Amazonas - UFAM. Contato: ncpamz@gmail.com
- Postado por: Comissão Editorial às 05h15 PM
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4/2/07
MIRANTE DO COTIDIANO

Olhe bem para essa imagem e procure identificar sua origem, seu significado e sua importância para a economia da Amazônia. Trata-se do fruto da seringueira - Hevea brasiliensis -, que em seu tempo certo estala de madura e faz cair ao chão à semente vitrificada da seringueira. A foto apresenta os dois momentos do fruto (o verde e o maduro semi-aberto). A seringueira em si é alta, detentora de uma copa encorpada, medindo entre 20 a 40 metros de altura, com um diâmetro de pouco mais de um metro. Ainda hoje, no Amazonas, em particular, nos rios Juruá, Purus, Madeira, baixo Amazonas e até mesmo nos arredores de Manaus pode-se identificar várias árvores de seringueiras nativas ou cultivadas. No entanto, foi no Jardim Botânico de Kew, em Londres, no século XIX, que Hooker classificou a seringueira, na perspectiva de industrializá-la. Feito isso, os investidores ingleses designaram o pesquisador Henry Wickham a vir a Amazônia para recolher as sementes.
Aqui, instalou-se em Santarém, no estado do Pará, identificando-se, segundo os relatos de época, como “colecionador de orquídeas”. O historiador Antônio Loureiro, em sua obra A Grande Crise (1985) afirma, que “em Kew brotaram 7.000 sementes, obtendo-se as primeiras mudas, levadas para o Jardim Botânico de Heneratgoda, no Ceilão (Hoje Sri Lanka), 1876, onde permaneceram produzindo mudas e sementes, à espera do momento oportuno para a sua difusão”. Outras informações sobre o procedimento do cultivo racional da seringueira encontra-se na página www.iapar.br . Quanto à gestão do conhecimento de nossa biodiversidade pelo governo brasileiro, até hoje reina o descaso, possibilitando, dessa feita, a evasão de nossas riquezas naturais de forma criminosa.
- Postado por: Comissão Editorial às 10h48 AM
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