3/3/07
NA TERRA DOS MANAÚS

* Ademir Ramos
A narrativa mítica sustenta, que no tempo que foi, não muito distante, existia um povo de porte pequeno, com os olhos oblíquos, cabelos lisos, com extrema beleza, que se mostrava alegre e risonho por tudo que lhe faziam de bem ou de mal. Esta gente-miúda vivia na floresta e banhavam-se todas as horas num grande rio, onde amava e germinava sua prole, na esperança de assim como rio crescer e se expandir como um povo sábio, senhor da ciência da terra, do mar e do infinito mundo.
Num certo dia, vindo não sei de onde, boiou entre eles, um moço com aparência diferente, trazendo consigo um caniço na mão e um longo cipó em forma de escada. No princípio nada dizia, mas exalava um cheiro doce das flores contagiando homens e mulheres.
O nome do moço o povo queria saber. No entanto, ele continuava em silêncio. Então, coube a curuminzada da aldeia, a tarefa de tentar descobrir o nome do belo moço que tinha uma marca nas ancas, sendo desproporcional aos humanos. Como ele não se manifestava, então começaram a chamar por variados apelidos, tendo por referência seus predicados corporais.
Além do nome, o povo queria saber o que significava também aquele caniço, bem como a escada de cipó. Era sem dúvida um mistério pra aquela gente. Mas, num certo dia uma das mulheres que voltava da roça viu aquele moço com as ancas avantajadas se transformar em cobra e entrar no tronco do pau. Quando de lá saiu veio acompanhado com outra gente, barulhando pelo mato à dentro.
Com bastante medo correu e conseguiu avisar a todos da transformação do belo moço. Foi o tempo suficiente para que o pajé fizesse desaparecer a gente-miúda, protegendo todo mundo das cobras criadas no seu próprio reino.
Passado luas, o pajé recorrendo aos deuses da floresta conseguiu decifrar o que a gente-cobra queria. Aí começou a entender a razão do caniço, que tinha por fim pescar homens e mulheres para fazer parte da corte das cobras, como presa fácil, para alimentar os seus interesses e os grandes negócios no mercado do infinito mundo, se beneficiando da vontade geral.
E o cipó escada? – Demorou mais o pajé depois de longa viagem a paricá decifrou a armação do belo moço, que se transformava em cobra durante o dia e a noite virava morcego – andirá – para chupar o sangue daquela gente.
A escada trazida pelo moço era para dar rapidez aos seus saltos enquanto homem fosse. Assim, procurou de imediato dar as devidas rasteiras em seus adversários, buscando abrigo nas instituições públicas para se tornar cada vez mais forte e dominar cada vez mais o povo gente-miúda.
Acuado em seu próprio território e sem muita alternativa, a gente-miúda, que muito sonhava caiu em si e começou a compreender que não era um só na floresta e que o pequeno clã cobra havia se multiplicado e se apossado do Porantim, o cetro do poder e a memória do seu povo.
A gente-cobra passou então a governar o povo, criando a figura do rei, a quem a todos deveriam obedecer cegamente. E assim, foram criando outros ninhos políticos para dominar cada vez mais esta gente-miúda com total referendo do patriarcado de Yurupari.
Triste e subjugado o reino dessa gente-miúda, apostando em sua juventude, começou a sonhar novamente, acreditando na possibilidade de criar um antídoto que pudesse barrar a esperteza do rei da gente-cobra. Assim, se valeram da força dos pajés, da irreverência da juventude, da sabedoria dos velhos e dos guerreiros para juntos mergulharem no buraco do tatu e trazerem pra o meio deles a coragem do homem-gavião.
Começa então a luta dessa gente-miúda filho dos Manaús para sustentar a sua emancipação política, rompendo com as oligarquias regionais. O primeiro passo é evitar uma vez por todas que o dinheiro público seja drenado para os negócios dessa gente graúda, filhos de cobra, que usam do caniço para pescar gente, aliciando por meio de promessas e mentiras o povo.
O segundo é destroná-los de seu reinado, esvaziando suas forças por meio das urnas, provocando náusea em seu apetite eleitoral.
E finalmente, o reinado da gente-miúda, que vive no interior da floresta deve levantar sua cabeça e acreditar que unidos, com a coragem do homem-gavião, podem devorar as cobras e sustentar novas formas de governar, promovendo a alegria dos homens, com a firme determinação de distribuir e não de concentrar a riqueza nas mãos dos pouquíssimos graúdos, que reinam nesse território. A proposta dessa gente-miúda fundamenta-se na Justiça Social e no orgulho de ser amazonense.
E o nome do belo moço que durante o dia vira cobra e a noite é um morcego vampiro, quem saberá?
* É antropólogo e professor da UFAM e supervisor do Núcleo de Cultura Política do Amazonas (NCPAM). Email: ncpamz@gmail.com
- Postado por: Comissão Editorial às 12h17 PM
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1/3/07
AÇÃO E FÉ NA AMAZÔNIA

Cartaz: www.cnbb.org.br
* Bruno Avelino Leal
O tema neste ano da campanha da fraternidade tem como o foco a Amazônia e sua preservação ao meio ambiente, mas principalmente valorizar o homem interiorano. A campanha busca levar não só ações políticas para a melhoria de vida dos moradores dos beiradões, mas também com o intuito de dialogar e aprofundar as relações com as mais variadas etnias existentes neste imenso território ocupado de florestas, rios e homens.
A mudança de foco para a região amazônica é movida devido a região representar um local estratégico não só de preservação ambiental como também de riquezas naturais e de gerar uma série de conflitos em que resulta inúmeras mortes, desde trabalhadores rurais em busca terras, até missionários a exemplo do assassinato de Dorot Stein, assim como aconteceu com o líder dos seringueiros Chico Mendes, defensor da floresta contra o desmatamento e agressão ao meio ambiente.
O papel da Igreja católica se torna fundamental, não só por engajar-se na luta contra a violência à natureza mas sobretudo está na luta pela justiça social, tão mascarado no interior da floresta. É louvável não somente esta atividade da igreja, porém é preciso buscar uma aproximação com os povos indígenas, agindo com respeito a sua tradição e seus cultos.
Todo o planeta está de olho na Amazônia. É necessário fortalecermos os movimentos sociais junto as instituições sérias, é de grande relevância para estarmos atentos a qualquer forma de exploração danosa que venha prejudicar o meio ambiente e o morador da floresta sendo “caboclo” ou etnias indígenas.
Este enfoque da campanha da fraternidade se torna de suma importância por levar a temática ao governo federal, agilizando uma série de problemáticas como a reforma agrária, a delimitação de terras em áreas estratégicas, o respeito a cultura autóctone etc. Portanto, olhamos esta campanha como algo positivo, que possa articular algo de concreto para a melhoria de vida destes cidadãos brasileiros que ocupam a maior área verde do planeta.
* Pesquisador do Núcleo de Cultura Política do Amazonas (NCPAM); Estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas - UFAM. contato: ncpamz@gmail.com
- Postado por: Comissão Editorial às 02h39 PM
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28/2/07
ESTUDOS SOBRE O EMPRESARIADO NO BRASIL

Imagem: www.valoronline.com.br
* Marcelo Seráfico
Desde Empresário Industrial e Desenvolvimento Econômico no Brasil do sociólogo Fernando Henrique Cardoso, passando por Empresário, Estado e Capitalismo no Brasil: 1930-1945 da economista Eli Diniz e chegando à série de estudos que vêm sendo realizados em diversas instituições nacionais e apresentados no seminário Empresa, Empresários e Sociedade (1998, 2000, 2002, 2004 e 2006), as funções econômicas, as posições político-ideológicas e as formas de ação política do empresariado têm ocupado a atenção de vários cientistas sociais.
São quatro os grandes eixos temáticos em torno dos quais as ciências sociais vêm estruturando suas análises sobre o empresariado no Brasil. O primeiro e mais expressivo, em termos do número de trabalhos publicados, é o que procura esclarecer as relações entre empresário e política. Inscrevem-se nele as pesquisas voltadas para a análise da característica das ideologias, das formas de organização e das posições políticas do empresariado. Essas pesquisas se debruçam sobre o empresariado industrial, comercial ou financeiro; sobre suas entidades de representação e estratégias de ação política; e sobre temas mais específicos que vão desde a atuação política de um empresário em particular até temas mais abrangentes como o modo pelo qual a própria literatura das ciências sociais vem tratando o empresariado.
Os objetivos desses trabalhos têm a ver com a resposta a perguntas como: quais as características da mentalidade, da ideologia e da ação política dos empresários industriais? Qual o papel e o comportamento político do empresário industrial brasileiro no processo de desenvolvimento industrial do país? Como se deu o desenvolvimento das entidades representativas do empresariado? Quais os valores norteadores da burguesia industrial? Quais os principais momentos da evolução histórica do empresariado no Brasil?
O segundo eixo temático é o que reúne os estudos sobre empresários e sociedade. Nesse caso, as preocupações se deslocam para temas como a diversidade de configuração dessa camada social, suas concepções e ações relativas à responsabilidade social, suas posições em relação às questões de gênero, raça, voluntariado e educação, além de inquietações envolvendo as características da empresa familiar.
Algumas das inquietações características dessas investigações são: como os empresários e empresas lidam com os consumidores e com a sociedade, de um modo geral? Que saberes e valores orientam suas ações de qualificação e treinamento? Como as entidades empresariais articulam-se e promovem a articulação com/entre governos e universidades? Como as ações afirmativas penetram o mundo empresarial?
O terceiro eixo temático se fundamenta nas preocupações envolvendo a relação entre empresários e globalização. Neste, as análises empíricas são fortemente marcadas pela preocupação teórica com as implicações da globalização para a identidade empresarial, a desnacionalização das empresas brasileiras, a reestruturação empresarial, a sobrevivência das pequenas e médias empresas.
As indagações daqueles que se dedicam a esses temas buscam dar conta de questões tais quais: como as entidades empresariais reagem à globalização? Quais os efeitos da reestruturação produtiva sobre o empresariado? Como as empresas se ajustam a ambientes competitivos dos quais emergem ameaças e oportunidades econômicas? Quais as estratégias de ocupação de mercados estrangeiros usadas por empresas transnacionais? Quais as mudanças na participação de mercado das empresas brasileiras depois da abertura econômica?
O quarto e último eixo remete às interpretações sobre o tema empresários e cultura, cujo cerne é a preocupação em desvelar como o mundo empresarial se caracteriza, também ele, por diversidades e por regularidades de práticas, valores, símbolos, discursos, identidades.
Alguns dos questionamentos que norteiam essas investigações são: como as origens culturais contribuem para a definição da prática empresarial? Quais os impactos da relação entre antropologia e mundo empresarial para o desenvolvimento dos estudos antropológicos? O que explica o uso do discurso da auto-ajuda nas atividades empresariais? Quais as características culturais das empresas transnacionais?
Essas pesquisas e análises abrangem diferentes contextos e momentos da história, cobrindo desde o período de formação do capitalismo industrial no Brasil, atravessando a crise do desenvolvimentismo e chegando aos processos de reestruturação produtiva e reforma do Estado mais recentes. Muitos deles avançam as fronteiras temáticas e consideram vários momentos do processo histórico. O que cabe destacar é que já são muitos os esforços no sentido de compreender a formação social, as funções econômicas, as posições políticas e as ideologias características do empresariado no Brasil, estudos esses que procuram revelar como essa camada social participa, em diferentes momentos, do desenvolvimento capitalista no país.
* Está Doutorando em Sociologia na UFRGS. contato: ncpamz@gmail.com
- Postado por: Comissão Editorial às 03h50 AM
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25/2/07
MIRANTE DO COTIDIANO

(Foto: João Fábio Braga)
Os pesquisadores do NCPAM estão participando efetivamente do Programa de Atividade Curricular de Extensão (PACE) da Universidade Federal do Amazonas “Quilombolas da Praça 14 de Janeiro: memória e iconografia da cultura afro-descendente em Manaus”, cujo objetivo principal é fazer uma série de registros acerca da cultura afro-brasileira, em particular, no tradicional bairro da Praça 14 de Janeiro.
A intenção do projeto é coletar uma série de depoimentos para, a partir das narrativas individuais, tentarmos reconstruir (pelo menos em parte) um pouco da história negra em nosso Estado, tendo como referência o próprio bairro. Um outro aspecto do projeto corresponde à coleta de imagens, retratos e outros tipos de materiais iconográficos que ajude na reconstrução da memória afro-brasileira em questão.
Dona Verônica, 68 anos (no centro da foto), filha da Dona Antônia dos Santos e sua vó a Dona Corina, umas das primeiras moradoras segundo ela a viverem no bairro. Sendo que a família dos Santos foi uma das primeiras famílias a virem morar na Praça 14 de janeiro. Ao falar sobre os espaços de sociabilidade, culinária e lazer existentes do (ou que existiam no) bairro Praça 14, reconstrói com propriedade a memória social deste bairro.
"Mamãe gostava muito de comer e fazer feijão. Toda fruta, ela comia com farinha, comia melancia,banana com farinha. Tudo com farinha! Ela fazia tacacá (...) as senhoras gostavam muito de fazer tacacá aqui no bairro. Principalmente, nas festas que haviam por aqui, tinha bastante tacacá. Festas como de São João, onde tinha o boi - aqui o boi vencedor e Caprichoso, e o Mina de ouro no Boulevard (...) lá na casa da Lolinha (bairro de São Francisco) tinha o boi Corre campo (...) Tinha tudo isso aqui. A festa do Divino Espírito Santo que a Dona Maria José festejava, assim como Cosme & Damião e São Benedito. E em São Benedito, o pessoal levantava o mastro. O levantamento do mastro ocorria aqui próximo e lá perto da igreja Nossa Senhora de Fátima. Na descida da rua Nhamundá era tudo festa de Cosme & Damião, festa dos santos que as pessoas daqui festejavam (...)".
- Postado por: Comissão Editorial às 11h20 AM
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