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6/4/07

CULTURA E ÓPERA NO AMAZONAS

* Mário Nelson Duarte

Um dos maiores erros alimentados pela sociedade de consumo, em seu imediatismo insano, é tratar cultura como uma despesa mal tolerada, algo a pesar nos orçamentos públicos. Isso gera distorções, como a voracidade dos agentes artísticos em busca de patrocínios, numa fraude sistêmica que transforma o alegado mecenato em verdadeiro assalto ao orçamento nacional, através de isenções tributárias e outros favores (diretos e/ou indiretos), auferidos pelos pretensos “benfeitores da arte”.

Exemplo recente, para citar apenas um, tivemos no patrocínio de um poderosíssimo banco a um também poderoso circo moderno franco-canadense, patrocínio este que, na verdade, foi globalmente assumido por toda a nacionalidade, pois a montagem do luxuoso espetáculo (desfrutado por relativamente poucos brasileiros) se fez à custa de benefícios fiscais.

Não abordarei, nesta oportunidade, o tema “cultura como fonte da maior riqueza de uma sociedade, que é a consciência política e ética de sua gente". Sobre isso já falaram e escreveram muitos e melhores analistas, dotados de recursos científicos e sociológicos mais fortes. Nem defendo a omissão do Estado na difusão de iniciativas culturais que, por sua intrínseca importância atávica, realmente precisem de apoio oficial. Essa obrigação dos governantes jamais pode ser postergada.

O povo amazonense há alguns anos, vem dando uma aula aos demais brasileiros sobre política cultural. O Rio de Janeiro, por exemplo, nas últimas décadas, não conseguiu estruturar sua programação artística com antecedência (o mínimo desejável seria de um ano): já estamos em abril e, seguindo o caótico modelo vigente há várias administrações, a atual direção do Theatro Municipal carioca ainda não divulgou uma programação completa para 2007; o musical Império, que tinha tudo para ser um sucesso durante os Jogos Panamericanos de julho, está prestes a sair de cena, por falta de fôlego financeiro; e as casas de shows ditas “turísticas” dificilmente irão além das habituais exuberâncias calipígias que, para eles, representam o carnaval brasileiro.

No Amazonas, o cenário é diferente. E devemos reconhecer e ter orgulho disso.

Estamos às vésperas de mais uma edição do Festival Amazonas de Ópera, que, entre outras façanhas, apresentou, em 2005, a tetralogia integral do Anel do Nibelungo, coisa que até hoje, no Brasil, nem mesmo os Municipais do Rio e de São Paulo se atreveram a encenar. Outras obras-primas de autores nacionais e estrangeiros, modernas ou de séculos anteriores, foram montadas com sucesso - e, o que é mais importante, com a participação de artistas locais, ombreados a estrelas de porte mundial. E sem fazer feio!

Pergunta cabível: podem-se enquadrar nossas conquistas culturais amazonenses na preocupação, objetiva e realista, de desmascarar os que tratam arte e educação como parasitas da economia nacional? Claro que sim! É o que demonstraremos, brevemente, no desdobramento desta abordagem.

* Jornalista com especialidade em Economia da Cultura e colaborador do NCPAM. contato: ncpamz@gmail.com


- Postado por: Comissão Editorial às 11h54 PM
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5/4/07

NOVOS RUMOS DA LITERATURA AMAZONENSE

Foto: www.bv.am.gov.br

* Ricardo Lima

Karl Marx, no seu magistral livro A Ideologia Alemã, ao analisar como as estruturas econômicas exerciam uma influência avassaladora sobre a mentalidade dos indivíduos, produziu uma teoria de tamanho impacto sobre século XX que boa parte dos sociólogos a partir dele se ocuparam em negar ou ratificar sua idéias.

De fato, é “O modo de produção material determina o caráter geral dos processos de vida social, política e espiritual.” Nas palavras do filósofo alemão - quando se fala em vida espiritual, não se engloba apenas a concepção de religião ou as crenças morais, se inclui também a produção intelectual, a arte e, portanto, a literatura.

Então, tomando esse direcionamento, o escritor, como qualquer outro cidadão, é um ser fruto das aspirações, angústias e idéias de seu tempo, ou seja, é fruto desta “produção material” que Marx descobrira; o que impulsiona a evolução da literatura é a dialética da sociedade, tendo por conseqüência nestes homens, sujeitos da história, a ânsia de resolver e entender a dinâmica do meio onde vive, e não simplesmente uma necessidade de superar seus mestres, como afirma o teórico literário Harold Bloom; que o diga então Emile Zola, que tentou criar uma escola literária capaz de equipara-se às conquistas científicas de seu tempo, o resultado foi o Naturalismo.

Mas onde pretendo chegar com essa explanação é decifrar o novo rumo que a literatura amazônica está tomando. Durante tanto tempo ocupada em retratar, principalmente, o universo do ribeirinho, do caboclo ou do indígena e suas angústias na luta de sobrevivência frente à floresta amazônica, foi nada mais que uma arte fruto de uma estrutura social “ruralizada” e, portanto, mais arcaica outrora predominante na Amazônia. 

Esse tema, que para muitos foi alvo de preconceito, tem perdido cada vez mais importância, ou pelos menos tem de dividir seu espaço com uma literatura mais urbana (como disse o escritor Max Carpentier), que só agora ganha mais espaço em nossa cena literária.

O progresso, esta força inexorável, destrói as antigas relações de produção para criar uma outra, racional e competitiva, recomeçou no Amazonas, depois de décadas em torpor após a decadência da borracha, nos anos sessenta. As condições materiais de existência, em constante urbanização, “em suas disparidades e antagonismos” (para usar uns termos de Octavio Ianni), chama cada vez mais atenção na vida intelectual desses escritores, principalmente os da nova geração.

Os temas típicos de grandes metrópoles, crimes, narcotráfico, desemprego, a miséria das periferias (no nosso caso a problemática das invasões)... Enfim o desespero do cidadão frente a um modelo social que tende a relegá-lo ao anonimato, estranho tanto para com os outros quanto para consigo mesmo, incapaz de gerir relações com base emocional, enfim, o homem que esta nova literatura enfoca é um ser individualista que tem por base o cálculo em suas relações com o outro, enxergando os homens como meio que, se bem aproveitado, se pode chegar a um fim especifico...

Essa literatura começou a mostrar sua face na década de 70, época em que o clube da madrugada dava sinais de esgotamento. Entre um de seus primeiros registros é a obra “O Tocador de Charamela” do já falecido Erasmo Linhares, volume de contos que, embora com algum toque de prosa regionalista, já mostrava a tônica do que viria ser uma nova tendência dos artistas “barés”, o enfoque de um “mundo cruel, mesquinho e desumano,” como escrevera Tenório Teles no prefácio da obra.

A literatura amazonense, então, parece que toma um rumo em se parecer cada vez com as que são produzidas pelos grandes centros urbanos do país, como São Paulo ou Rio de Janeiro. Na ânsia de compreender a mutação social da sociedade amazonense, os novos escritores acabam, mesmo que inconscientemente, por desenvolver uma nova forma de linguagem artística para interpretar o mundo amazônico.

* Pesquisador do Núcleo de Cultura Política do Amazonas e graduando de Ciências Sociais da Ufam. Contato: ncpamz@gmail.com


- Postado por: Comissão Editorial às 12h51 PM
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3/4/07

RUPTURA DO CONTRATO

Foto: www.marcelomin.com.br

* Aquiles Santos Pinheiro

É nos assegurado que se cumprirmos a nossa parte na relação direito-deveres entre Estado e sociedade, teremos, em contrapartida, à contraprestação jurisdicional no tocante à conservação dos nossos direitos: direito ao trabalho, a um salário digno, a um sistema de saúde eficiente e eficaz, à segurança, à educação de qualidade, transporte público, entre tantos outros.

No entanto, o que se observa, tendo em vista o completo caos em que se encontram as chamadas estruturas democráticas, é que esse pressuposto da democracia representativa não passa de uma falácia, pois não recebemos, na mesma proporção, os nossos direitos mais elementares, seja um salário digno, seja uma educação de qualidade, seja a segurança no direito de ir-e-vir.

Ao invés disso, o que se observa são os cidadãos reféns da violência de bandidos (palacianos ou não) dando ordens para que as portas de comércios e escolas sejam cerradas, cobrando pedágio para que as pessoas circulem livremente, impondo toque de recolher e proclamando o “Estado Paralelo”, em franco desafio ao Estado legitimamente constituído.

Ora, se nós, cidadãos abrimos mão de nossa soberania, de nossa autodeterminação, do nosso livre arbítrio e o repassamos ao Estado, é justo contarmos com a infalibilidade dessa estrutura que, supostamente, ajudamos a criar.

Dito de outra forma, o que nós, cidadãos comuns esperamos, é que se cumpra a Constituição e o que está assegurado nela: as garantias fundamentais e de dignidade da pessoa humana.

Não dá mais para aceitar maus governantes fingindo que governam, enquanto o povo finge viver em uma democracia do direito de ter fome, de estar desempregado, de morrer nas filas dos postos de saúde por falta de assistência médica, de ser vítima da violência e da impunidade.

O Brasil se assemelha a uma espécie de “ilha da fantasia”, cuja principal fantasia (a do povo), é representar o papel de bobo da corte, já que se eliminaram todos os súditos e os senhores apenas beneficiam seus compadrios e implantam vergonhosamente o nepotismo, cujo critério, é ter o “mérito” de ser parente de quem detêm o poder, seja de direita ou de esquerda.

O Executivo especializou-se em corromper parlamentares para fazerem o jogo de seus interesses, ou melhor, dos interesses dos que financiam campanhas políticas. O Legislativo virou um imbróglio de facções religiosas, de empresas corporativistas de médicos, empreiteiros, donos de escolas particulares, enfim uma verdadeira Babel.

Neste contexto, o que menos conta é o interesse do povo, rompendo-se descarada e acintosamente com o contrato Estado-sociedade, via Carta Magna, que, aliás, diante do descaso com que é tratada, deveria se chamar “Carta Mínima”. Controle externo, só o do Judiciário, que fica de mãos atadas em face das artimanhas burocráticas do Executivo e Legislativo.

E os intelectuais? Bem, esses sempre foram fascinados pelos salões do poder e, se nos séculos XVII e XVIII, eram convocados a urdir todo um emaranhado de ideologias que nos enredam até hoje nas teias dos poderosos, ainda hoje há os que pensam em como manter o status quo de uma relação que não é de liberdade, mas de escravidão, seja nas ditas democracias, seja nos remanescentes reinados.

Em face da ruptura do Contrato Social e o conseqüente estiolamento das estruturas da democracia representativa, temos o direito legítimo de nos rebelar contra essa estrutura que marginaliza a grande maioria, enquanto uma minoria se lambuza nos fartos banquetes promovidos pela agiotagem do poder, em que tudo vale menos os preceitos da Constituição. Cabe-nos, portanto, decidirmos se queremos ser súditos ou senhores de nossos próprios destinos, de nossos desideratos, enquanto seres livres.

Rompamos com os grilhões, por meio da desobediência civil, recusando-nos a manter essa máquina estatal que só serve para que governantes corruptos e seus “amiguinhos” corruptores se tornem cada vez mais ricos, lambuzando-se à tripa-forra à custa da desgraça de milhares de trabalhadores brasileiros.

Tomemos de volta nossa soberania, já que o Estado não é capaz de nos conceder as ditas garantias constitucionais, sobretudo quando a primeira lei (o bem-estar popular) é rasgada e jogado na lixeira da história todos os dias pelos tais representantes do povo. A não ser de quatro em quatro anos, onde somos obrigados a percorrer uma verdadeira via crucis até a próxima eleição, onde somos novamente crucificados em nome desse arremedo de democracia.

* Membro da Editoria do Núcleo de Cultura Política do Amazonas e graduando de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Contato: ncpamz@gmail.com


- Postado por: Comissão Editorial às 03h46 PM
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1/4/07

MIRANTE DO COTIDIANO

(foto: Leila Mattos)

Entrevista

Reclama-se por solidariedade, permitindo com que a única Organização Não-Governamental (ONG) atuante em Humaitá (AM), em defesa da proteção do meio ambiente, possa continuar o seu trabalho promovendo uma cultura cooperativa sustentável no sul do Amazonas.

Na entrevista, com a professora Leila Mattos, presidente da Aliança para o desenvolvimento Amazônico Sustentável - Pacto Amazônico - conhecemos os objetivos da ONG e os desafios enfrentados. O Sul do Amazonas nas fronteiras de Rondônia, Acre e Mato Grosso é uma “área crítica, alvo de muitas operações da Polícia Federal”, comenta.

Em entrevista ao NCPAM, a presidente Leila Mattos, por E-mail, solicitou ajuda da Ministra Marina Silva, mas até agora não recebeu retorno. Confira a entrevista e admire a vista aérea da cidade de Humaitá às margens do rio Madeira.

NCPAM: Em que consiste o trabalho do Pacto em seu dia-a-dia?

Leila Mattos: Nosso dia-a-dia é marcado pelo atendimento as lideranças - presidentes de associações, representantes de assentados, entre outros - assessorando na formatação de pequenos projetos comunitários, também estamos envolvidos na organização do Conselho Consultivo da Flona de Humaitá, diretamente com a chefia da Flona-IBAMA - nesta altura, estamos programando a agenda de visita ás comunidades do interior e do entorno para sensibilização e escolha dos representantes para a composição do Conselho Consultivo.

Atualmente, também desenvolvemos quatro pequenos projetos das comunidades do Lago do Antônio, Cristo Rei, PAE-BOTOS para aquisição de um barco que irá viabilizar o escoamento da produção familiar extrativista e serão enviados ao Ministério do Meio Ambiente. Também elaboramos pequenas oficinas nas comunidades rurais e ribeirinhas, como oficina de associativismo, oficina de economia rural, educação ambiental....

Promovemos ano passado, o Curso de Saúde na Floresta, em parceria com a Diocese de Humaitá, dela participaram os agentes de saúde comunitários da periferia e ribeirinhos, foi bastante proveitoso. Participamos ativamente em todas as ações que leve o esclarecimento às populações quanto à preservação do meio ambiente.

NCPAM: Quais suas articulações local e nacional, incluindo governo e movimento social?

Leila Mattos: Temos ótimas relações com vários setores locais como o IBAMA, o INCRA, a Universidade Federal do Amazonas, a Universidade Estadual do Amazonas e Diocese. Temos algumas dificuldades, devido à politicagem local, de estreitar laços com a prefeitura de Humaitá, pois somos vistos como "poder paralelo" o que é uma pena. Em nível nacional, somos parceiros da Comissão Pastoral da Terra-AM - através da Ir. Auriedia, Comissão dos Direitos Humanos - Pe. Guilermo, GTA – Adilson, WWF - Marcos Pinheiro, Fundação Vitória Amazônica - Carlos Durigam, Secretaria de Desenvolvimento Sustentável - Virgilio Viana e Rita Mesquita, IBAMA Dr. Henrique, Instituto Sócio-Ambiental - Marina, entre outros. Somos membros do Conselho Indígena Distrital, do Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural Sustentável.

NCPAM: É verdade, que no Sul do Amazonas a devastação é uma
realidade?

Leila Mattos: Estamos no limite do arco do povoamento adensado, ou arco da destruição, isso, é fato, devido a posição geográfica, na fronteira dos estados de Rondônia/Amazonas/Mato Grosso - via Transamazônica que nos liga ao município de Apuí, ao famoso km 180 de onde, segundo dados da Polícia Federal e IBAMA, parte grande número de madeira ilegal e de serrarias de última hora, ali como pode acompanhar pelo mapa da devastação, se alastrou bastante partindo da "espinha de peixe" original - o Km 180 do Apuí - é a porta do avanço da fronteira agrícola – monocultura - e onde, os madeireiros localizam seus investimentos. A área é crítica e alvo de muitas operações da Polícia Federal.


- Postado por: Comissão Editorial às 01h15 AM
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