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28/4/07

DESPEITO É BOM, E EU GOSTO

Foto: www.overmundo.com.br

* Daniel Valentim

Bebo como quem perde o trem. Fracassado, um resto de fila pingando de qualquer balcão, sem traço do orgulho tácito de se chegar a tempo e pegar um bom lugar. Meu deus, péssimo dia pra beber. No rádio ambiente não há conforto: “True colors” da Madonna, cantada pelo cara do Gênesis... pelo menos é o que parece. Mais uma vodka. Gosto de beber vodka com gelo e um limão espremido; a saliva coalha na língua, como o faz uma completa falta de assunto. Ah sim... álcool e falta de assunto, os pilares do Jornalismo.

Uma olhada nos cadernos culturais que circulam por Manaus dá um belo exemplo disso – da falta de assunto, porque o gosto de jornalista pelo álcool já pertence ao senso comum. Quem já trabalhou em qualquer redação de jornal por aqui sabe que editorias de cultura são tratadas apenas como veículo de propaganda de festa e assessoria de imprensa para a Secretaria de Estado da Cultura (SEC), que adora bradar aos quatro cantos que foi a responsável pelo reflorescimento das artes no Amazonas, mas que faz, na verdade, uma forte política de eventos – grande parte sem qualidade ou proposta estética alguma – que, no fim das contas, não vai deixar nada.

Essa mesma falta de senso crítico da Pasta Cultural e da quase ausência de investimento em formação – e não adianta ninguém da SEC querer dizer que o Centro Cultural Cláudio Santoro (CCCS) é uma prova de que o Governo banca formação de artista, porque aquilo lá é celeiro de voto de pais de alunos: o que interessa é oferecer o máximo de vagas com prejuízo óbvio para a qualidade do ensino – também acontece nos próprios jornais da cidade. Com algumas exceções, quem vai trabalhar num caderno de cultura é quem não está fazendo falta na seção de Cidades, ou quem pegou uma assessoria de imprensa e não quer ser demitido ou ferir a ética da profissão – sim porque jornalismo cultural não é jornalismo.

O resultado desse descaso é a transformação dos cadernos de cultura em colunas sociais e propagandas incensadas da arte canastrona-mas-amiga-do-chefe-de-redação. Não há uma nesga de senso crítico, e parece que a própria classe artística gosta disso, sente-se segura e intocável no provincianismo. Faz qualquer coisa, ganha a capa do caderno e tudo fica por isso mesmo.

Não há discussão sobre políticas culturais – ou a falta delas – ou sobre estética, nem uma pesquisa sobre movimentos artísticos alternativos. A culpa não é só do despreparo do repórter – são poucos os jornalistas amazonenses que entendem e escrevem sobre arte –, mas também de editores que não instigam o trabalho de ninguém e fazem cara feia para qualquer coisa nova ou fato que vá chatear fulano ou beltrano. Trata-se de um certo paradoxo, pois imbuídos do desejo de “popularizar” os jornais, muitos editores só se interessam em dizer em “primeira mão” o que todos já ouviram.

Há um caso absurdo, que NEM se refere à cultura amazonense, relatado a mim pelo jornalista Omar Gusmão, que mostra bem isso. Ele quis escrever um artigo sobre a obra do Chico Science no dia em que chegou a notícia da morte do artista, mas o chefe de redação achou besteira dar destaque ao fato porque “ninguém conhecia Chico Science”. Para provar seu ponto, saiu na redação inteira perguntando a um por um quem conhecia o artista, e para espanto de Omar apenas ele e o editor do caderno o conheciam. Um ou outro disse “já tinha ouvido falar”. De qualquer forma, mesmo que nem os próprios jornalistas soubessem da importância de Chico, que passassem finalmente a saber depois do artigo.

O bom jornalista parece que é aquele que desistiu, sabe-se prescindível diante de um bom humorista em qualquer lugar. Os bons, que ficaram, são carne de pescoço: continuam se levando tão a sério que não estão fazendo galhofa quando se dizem os olhos da sociedade, os fiscalizadores das misérias, mazelas e mazorcas estatais... besteira! Um jornal aqui pode publicar qualquer coisa desde que nunca deixe de trazer os classificados. Meu deus, onde estariam minhas putas, detetives particulares e necrológios? Mais uma vodka.

Desta vez me traga uns amendoins. Talvez, se salgasse o céu da boca, chegava finalmente ao discurso impróprio; essa azia, coágulos nas papilas, bafo de coco verde vazio. A vodka era barata e perdi todos os trens... meu discurso é um polegar tonto pedindo carona. Péssimo dia pra beber. Aqui, jornalista nunca toma partido, mas se filia ao PT.

* Jornalista do blog  www.overmundo.com.br


- Postado por: Comissão Editorial às 09h45 AM
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26/4/07

CIÊNCIAS SOCIAIS NO AMAZONAS

Imagem: www.cso.ufjf.br/

* Ademir Ramos

Há vinte anos atrás, em 1987, criamos na Universidade Federal do Amazonas o Curso de Ciências Sociais com total referendo do Professor Reitor Roberto dos Santos Vieira. Faz-se saudosa referência a este mestre porque foi ele que inaugurou na Amazônia os primeiros cursos sobre a problemática ambiental, formando seguidores que até hoje exercem com dignidade e compromisso a lição que o mestre Vieira legou, bem como, registramos na oportunidade o incentivo que nos deu para a sustentação de nossa proposta.

Ciências Sociais resulta de uma determinação das lideranças estudantis representadas por alunos do antigo Curso de Estudos Sócias, juntamente com abnegados professores do porte de Regina Nakamura, Isabel Valle, Heliandro Maia, Carlos Antunes, Moisés Nobre Leão e outros. Nessa empreitada acadêmica tivemos que superar vários obstáculos para a consecução da criação do Curso.

A disputa não era só pedagógica ou ideológica, mas um tanto quanto farisaica e venal: se não fiz ninguém fará. No entanto, recorremos a consultores externos do quilate de Carlos Moreira Neto, Miriam Limoeiro, Renato Ortiz e José Paulo Netto, para nos assessorar na formatação do projeto pedagógico, com determinação e compromisso em atenção aos estudos e pesquisa na Amazônia.

Feito isso, no exercício da chefia, submetemos a aprovação do Colegiado do Departamento de Ciências Sociais o Projeto de Criação do Curso. Nessa reunião, o então Diretor do Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL) chegou ao ponto, de arrebanhar outros chefes de Departamentos, com curso recém criados, para prestar depoimentos na reunião em pauta, inviabilizando a proposta de criação do Curso de Ciências Sociais no Amazonas. No entanto, o Projeto mereceu aprovação com referendo dos votos dos representantes discentes.

Instruído o processo, encaminhamos para ser discutido e apreciado pela instância superior do ICHL, que é o Conselho Departamental. O então Diretor, que era professor do Departamento de Ciências Sociais, contrariado no voto em reunião do Departamento, não satisfeito, designou a professora Heloísa Lara Campos da Costa, também contrária à criação do Curso de Ciências Sociais, para relatar o processo e sua posterior votação em plenária.

Sem constrangimento e sem julgar-se impedida moralmente, a professora designada assumiu de pronto a tarefa de remeter as masmorras à criação do Curso de Ciências Sociais, dando-se por satisfeita.

Dito e feito. Na reunião marcada, sob a batuta do Diretor do ICHL e Presidente do Conselho Departamental, o fato é consumado, atestando a mediana compreensão que os atores defendiam quanto à criação do Curso de Ciências Sociais. No entanto, para não se comprometer historicamente, não lavraram nos autos as razões e os entendimentos que amparavam a decisão sorrateira dos doutos da corte do ICHL, pela não criação do curso.

Contudo, movido pela força dos alunos, recorremos ao Conselho de Ensino e Pesquisa, em grau de recurso, para apreciar a matéria negada. O contexto era inteiramente favorável porque outros campos da ciência mobilizavam-se também pela criação de novos cursos, em cumprimento às demandas postas pela PETROBRAS, é claro, que o nosso projeto não se enquadrava nesse gradiente.

Enquanto as novas propostas caminhavam favoravelmente, a nossa que contava com Departamento estruturado, biblioteca, corpo docente, e um grande desafio de se estudar e pesquisar a Amazônia no campo das Ciências Sociais vinha sofrendo de estreita consciência por parte dos intérpretes burocratas do segundo escalão da academia.

No dia da reunião do Conselho de Ensino e Pesquisa, presidida pelo Reitor Roberto dos Santos Vieira, quando o processo de Criação do Curso de Ciências Socais entrou em discussão, não se tinha argumento para apreciar porque os doutos não haviam lavrado nos termos do processo a justificativa do indeferimento.

Então, o Presidente do Conselho acatou o pedido de vista, suspendendo a reunião para requerer do Conselho Departamental do ICHL as razões do indeferimento. De imediato, nos deslocamos da Reitoria, que na época situava-se na Getulio Vargas e partimos em direção ao Campus Universitário, sendo o arauto da mensagem dos Conselheiros.

Às 17 horas, aproximadamente, recebemos o parecer das mãos do então Diretor do ICHL e levamos ao Conselho, que de imediato retoma os trabalhos e resolve aprovar a Criação do Curso de Ciências Sociais na Universidade Federal do Amazonas nos termos apresentado pelo Departamento de Ciências Sociais, por julgar improcedentes as razões apresentadas.

O relato que fazemos pelo reconhecimento dos 20 anos de Ciências Sociais é inteiramente fundado na memória. Se o estudioso quiser aprofundar ou contestar as afirmativas pode se valer das Atas e do próprio processo que deve está arquivado no acervo do antigo Conselho Universitário.

Voltamos, nesse primeiro semestre de 2007, a ministrar aulas no Curso de Ciências Sociais depois de uma longa diáspora. Voltamos com muita alegria aprendendo com o outro, formas do saber para suplantar uma vez por toda a intolerância, a mediocridade e arrogância acadêmica que se esconde na vetusta forma de se fazer ciência, obliterando os campos da cultura, sociedade e da política em nome da estreita inteligência promotora da alienação, que muito se identifica com o eruditismo acadêmico dos bacharéis.

* É antropólogo e professor da UFAM e supervisor do Núcleo de Cultura Política do Amazonas (NCPAM). Email: ncpamz@gmail.com


- Postado por: Comissão Editorial às 04h28 PM
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24/4/07

RELAÇÃO PROFESSOR-ALUNO

Foto: www.lzsport.com/

* Greice Ramos da Silva

A figura do professor ainda exerce um poder extraordinário sobre o aluno, seja ele de que idade for.

Um olhar de desprezo, a indiferença e o descaso doem mais do que qualquer castigo! O aluno encontra-se em uma situação de tal dependência em relação ao professor, que um julgamento negativo do mesmo pode cortar sempre a autoconfiança e o gosto pelo estudo.

O educador além de se preocupar com o conteúdo didático,  ele deve se lembrar que suas atitudes afetam o desenvolvimento da personalidade do aluno.

A psicóloga Wanderli Fonseca em sua pesquisa escolheu o desenho como base de estudo, porque por meio dessa atividade a criança revela sentimentos. Principalmente se eles forem negativos.

Na infância, mostrar hostilidade com palavras é difícil, mas, ao desenhar, a criança pode expressar agressão. Não é por acaso que os alunos considerados ruins retrataram negativamente o professor e os de bom desempenho fizeram o contrário.

Como a importância do educador é mais acentuada nas séries iniciais, a psicóloga decidiu trabalhar só com crianças do ensino fundamental. Nessa fase, o aluno convive com um único adulto durante quase todo o tempo em que está em classe. É o educador quem encaminha o aluno na passagem do meio familiar para o desconhecido mundo da escola. Tudo isso faz dele um objeto de afeição.

Portanto, a relação afetiva professor/aluno ganhou peso nos últimos anos, já que a escola tem dividido com a família cada vez mais cedo a tarefa de cuidar do aluno. Além disso, como os laços criados no ambiente escolar não têm a mesma possessividade das ligações familiares, essa relação se torna especialmente importante. Não há dúvida: os primeiros contatos com a escola definem se a criança terá uma convivência boa ou não com o aprendizado.

Infelizmente o magistério muitas vezes é visto como sacerdócio, não como profissão. Há uma falsa imagem de que todos os professores amam todos os seus alunos e vice-versa. Mas não podemos nos deixar enganar por essa miragem. Trata-se de uma relação emocional intensa, e relações intensas pressupõem conflitos.

Porém, a escola pode ser particular ou pública, mesmo assim nos mostra que a forma de ensinar muda a relação professor/aluno. Mas o importante não é a opção pedagógica e sim a relação afetiva. Seja qual for a linha de ensino, a proximidade com os alunos sempre nos dará a chance de conhecer o que eles já sabem e de avaliar melhor suas dificuldades.

Se você é educador, cuidado!

Todos os seus alunos e alunas estão constantemente observando suas atitudes e reações para saber que valor eles têm para você. Você é como um espelho para eles. Que imagem de si mesmos eles vão descobrir neste espelho?

* Licenciada em Pedagogia com habilitação em Administração e Inspeção Escolar Pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM)


- Postado por: Comissão Editorial às 06h57 PM
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22/4/07

MIRANTE DO COTIDIANO

Pesquisadora Priscila Printes e o Mestre Manuel

Foto: João Fábio Braga

No decorrer do projeto de Atividade Curricular de Extensão (ACE) Quilombolas da Praça 14 de Janeiro: Memória e Iconografia da Cultura Afro-Brasileira em Manaus, desenvolvemos um trabalho de pesquisa que trouxe à tona histórias que poucos conhecem ou ouviram falar. Chegamos até aos ascendentes dos primeiros escravos libertos, como Dona Severa, avó de seu Heitor e dona Lourdinha.

Na Japurá, uma das principais ruas do bairro, encontramos Mestre Manoel (na foto acima) um dos remanescentes dos negros vindos do Maranhão que, com muita simplicidade e simpatia nos descreveu um pouco da história que compõe o legado de seus antecessores e um pouco dos costumes que herdaram ao longo do tempo. Ele nos conta o seguinte:

“Eu sou da terceira geração da família que se instalou aqui, remanescente de escravos. Eu já me considero nortista e amazonense. Minha avó, pelo que tenho conhecimento, veio fugida do Maranhão devido à escravidão. Na verdade, ela não era maranhense era pernambucana; o meu avô (Joaquim Vieira) é que era maranhense”.

Nossa pesquisa, dessa forma, tenta colaborar com o reconhecimento da cultura afro-brasileira na região norte tornando evidente as marcas e registros que eram discriminados historicamente. Reflete nesta terra o que o Brasil possui de mais marcante: a mistura de raças e a originalidade que cada uma carrega.      

(Na foto acima estão presente a pesquisadora Priscila Printes e o Mestre Manuel).


- Postado por: Comissão Editorial às 09h26 AM
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