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5/5/07

A TRAGÉDIA DA JUVENTUDE

Foto: www.arianabueno.weblogger.terra.com.br/

* Ademir Ramos

Em situação os homens são bem diferentes, podem dissimular ou se afirmar frente à tragédia que a vida proporciona. No mês de Abril que passou compartilhei da dor de uma família amiga por ter perdido seu filho de 16 anos, vitima de acidente automobilístico.

É sem duvida desesperador vivenciar esse momento de separação violenta, em que pai, mãe e amigos se encontram para reconhecer o fato e ao mesmo tempo ritualizar a morte para o viver do cotidiano.

Os acidentes automobilísticos por todo mundo têm ceifado milhares de vida e, principalmente, dos jovens. O fenômeno, na verdade, já se transformou em caso recorrente, exigindo dos especialistas análises mais densas quanto à trama da matéria em seu contexto urbano e relacional.

Mas, por que os jovens? Quais seus determinantes culturais e sociais? Quais os limites da Família, do Estado e da Sociedade? - O fato impõe uma série de indagações na perspectiva de se compreender o cenário em que esses atores estão envolvidos.

Em si mesmo o fato tem a sua especificidade local. No entanto, outras variantes denunciam a unidade significativa que representa o fenômeno na trama social. Por isso, deve-se ampliar a discussão nos meios de comunicação com envolvimento dos próprios jovens usuários do sistema viário urbano, motorizado ou não para que conheçam a complexidade do ato e quem sabe possam se resguardar dos futuros acidentes.

Uma das formas de embrutecimento dos homens é a ignorância seguida do individualismo bestial. Cerca-se dos outros em si mesmo como se nada tivesse haver e nem tampouco fosse parte do problema. Tal comportamento não contribui em nada para resolução das questões urbanas, pois, formas de violência como está estendem-se por toda estrutura, independente de status ou classe social.

O que tem ocorrido nesse processo é que os jovens entre 14 e 18 anos, tratando-se de uma situação hipotética, ampliam suas relações sociais, consolidando grupos naturais às vezes em conflito com os valores familiares. Dessa feita, os pais perdem o controle da situação e deixam o jovem à mercê do impulso do coletivo.

O conflito de valores e de práticas pedagógicas pode suscitar novas reflexões morais, quando se tem com quem dialogar. Na ausência desta prática o domínio do coletivo se faz pelo autoritarismo do fazer pelo fazer.

O grave de tudo é quando nessa circunstância tem-se acesso às drogas, bebidas e demais facilidades que o crime oferece para assegurar a participação do jovem na rede do tráfico.

O Estado por sua vez tem sido omisso frente às dificuldades que a família apresenta. Sua única atitude tem sido a repressão policial. Portanto, indignado exige-se dos governantes formulações de políticas públicas em atenção à família e ao jovem cidadão, centrando na escola e nas oportunidades de trabalho, o combate efetivo à violência armada, salvaguardando a vida e a dignidade da juventude brasileira.

A tragédia vivenciada por milhares de famílias brasileiras tem de ser reparadas por gestos concretos, que venham mobilizar a sociedade por meio de suas agências educacionais, profissionais que promovam campanhas educativas e ofereçam novas oportunidades aos jovens como testemunhas de nossa história.

* É antropólogo e professor da UFAM e supervisor do Núcleo de Cultura Política do Amazonas (NCPAM). Email: ncpamz@gmail.com


- Postado por: Comissão Editorial às 11h02 AM
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3/5/07

O SENTIDO DE PERTENCIMENTO DE CLASSE

* Ricardo Antunes

Acabamos de comemorar mais um 1° de Maio, data histórica para os trabalhadores na luta por seus direitos e conquistas. Quando em 1886 os “Mártires de Chicago” foram condenados à morte e à prisão perpétua, estavam lutando pela redução da jornada de trabalho davam passos significativos na busca da coesão e solidariedade de classe.

A partir de então, o 1° de Maio tornou-se um dos marcos na luta dos trabalhadores. Hoje [...] o mundo do trabalho vivencia uma situação ainda mais difícil, tantos são os impasses e desafios presentes na sociedade contemporânea. Mais do que nunca, o sentido de pertencimento de classe coloca-se como fundamental para todos aqueles que vivem do trabalho. Quais são, então, alguns desses mais agudos desafios?

Inicio afirmando que, nos últimos 20 anos, o movimento operário presenciou a situação mais crítica de toda a sua história, desde o nascimento das trade unions na Inglaterra. Crise que se deveu, fundamentalmente, a um conjunto de metamorfoses que afetaram simultaneamente tanto a sua materialidade quanto a sua esfera mais propriamente subjetiva.

Da reestruturação produtiva à crise dos organismos de representação dos trabalhadores, como os sindicatos, todas essas dimensões foram de alguma maneira afetadas.

Vários são os elementos constitutivos dessa crise, dos quais podemos sinteticamente destacar a abrupta desmontagem, o desmoronamento do Leste Europeu e dos países que tentaram uma transição pós-capitalista. Esse episódio permitiu que se desenvolvesse [...] a falsa idéia do ‘fim do socialismo’. Eliminada a possibilidade de conquista do socialismo, dizem, restaria para a esquerda somente a busca de um caminho “civilizado” dentro do capitalismo.

A via socialdemocrática foi assimilada por amplos contingentes da esquerda como a única alternativa possível para resistir ao neoliberalismo e à ordem do capital. E, até agora, a esquerda anticapitalista não tem conseguido mostrar que um novo caminho socialista é, em verdade, a única possibilidade, no limiar do século XXI, de operar uma ruptura com a lógica destrutiva do sistema produtor de mercadorias.

Embora a longo prazo as conseqüências do desmoronamento do Leste Europeu sejam positivas, pois se coloca a possibilidade da retomada, em bases inteiramente novas, de um projeto socialista de novo tipo, no plano mais contingencial e imediato houve, em significativas parcelas da classe trabalhadora, a assimilação da manipulada e equivocada tese do “fim do socialismo”.

Portanto, paralelamente ao desmoronamento da esquerda tradicional, vinculada aos partidos comunistas (PCs) da era (neo)stalinista, deu-se um agudo processo de socialdemocratização da esquerda e a sua conseqüente atuação subordinada à ordem do capital.

Esta acomodação socialdemocrática penetrou no interior da ‘classe-que-vive-do-trabalho’. e, com a crise do welfare state, durante a avalanche nefasta do projeto neoliberal, deu-se um processo de regressão no interior da própria socialdemocracia, que passou a atuar de maneira muito mais próxima da agenda neoliberal. De Mitterrand a Felipe Gonzáles, para não falar na versão tropical, FHC.

Há, entretanto, um ponto que me parece central, quando se procura entender as metamorfoses no interior do mundo do trabalho: as últimas décadas, como respostas do capital à crise de acumulação irrompida de 1973, intensificaram-se as transformações no próprio processo produtivo, por meio do avanço tecnológico, da constituição das formas de acumulação flexível e dos modelos alternativos ao binômio taylorismo/fordismo, no qual se destacam, para o capital, o modelo de desconcentração produtiva do norte da Itália, as experiências da Califórnia, do já truncado modelo sueco e, especialmente, da potencialidade e dimensão expansionista do modelo japonês denominado toyotismo.

Muitas foram as transformações ocorridas no interior dos países capitalistas avançados, com fortes repercussões nos países do Terceiro Mundo industrializados e intermediários [...].

Podemos sinteticamente destacar a diminuição do operariado manual, fabril, típico do fordismo; a expansão das inúmeras formas de subproletarização do trabalho, decorrente da expansão do trabalho precários, parcial, temporário, ‘terceirizado’ etc. houve também um aumento expressivo do trabalho feminino no interior da classe trabalhadora; deu-se uma enorme expansão dos assalariados médios, especialmente nos setor de serviços, e presencia-se a exclusão dos jovens recém-formados [...]. A classe trabalhadora fragmentou-se, heterogeneizou-se e complexificou-se ainda mais.

[...] O sistema produtor de mercadorias, vigente em quase todas as partes do mundo, mostra seu enorme caráter destrutivo: sua lógica elimina, entre tantas coisas, a própria força de trabalho. O brutal desemprego estrutural [...] é uma evidencia desse caráter destrutivo.

Isso coloca, no final do século XX, um desafio para a totalidade do mundo do trabalho: é preciso criar laços entre aqueles contingentes sociais que ainda detêm a centralidade do processo de criação de valores. [...] Articular desde os núcleos mais organizados das classes trabalhadoras até aquelas que vivenciam as formas mais nefastas de exclusão social. Soldar os laços de coesão e solidariedade de classe, como aprendemos com os “Mártires de Chicago”, resgatando, desse modo, o sentido de pertencimento de classe.

* É sociólogo e professor da UNICAMP. O texto foi extraído do seu livro A desertificação neoliberal no Brasil (Collor, FHC e Lula). 2. ed. Campinas: Autores Associados, 2005, pp. 70-73. Título Original do texto acima - 1° de Maio: resgatar o sentido de pertencimento de classe.


- Postado por: Comissão Editorial às 12h45 PM
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1/5/07

PELO DIA INTERNACIONAL DO TRABALHADOR

Imagem: www.amok-she.blogspot.com/

* Ademir Ramos

As representações iconográficas referentes à data comemorativa dos trabalhadores, por quase todo o mundo, têm sido as mais diversas. No entanto, fundamentam-se no mesmo fato histórico resultante das lutas sociais travadas, desde os primórdios da Revolução Industrial, contrárias a sobrecarga e as desumanas condições de trabalho vivenciado por homens, mulheres e crianças incorporadas compulsoriamente no processo produtivo.

O 1º de Maio pautou-se, historicamente, nas reivindicações dos trabalhadores de Chicago, nos Estados Unidos da América, quando em 1886, o movimento sindicalista unificado, depois das inúmeras tentativas de negociações, resolveu chamar à luta os trabalhadores sob a seguinte palavra de ordem - "Nenhum operário deve trabalhar mais de oito horas por dia. Oito horas de Trabalho! Oito horas de repouso! Oito horas de Educação".

A greve geral e as manifestações de ruas foram os recursos usados pacificamente pelos trabalhadores para sensibilizar os senhores proprietários das indústrias de Chicago. Era sábado, as passeatas contavam com o apoio dos familiares dos operários que se vestiam culturalmente, diferenciados para afirmar suas identidades nacionais. Eram operários alemães, poloneses, russos, italianos, irlandeses, entre outros, somando milhares de participantes que se concentravam na praça Haymarket.

Terminado os pronunciamentos das lideranças, os participantes começavam a se dispersar com suas famílias, quando de repente surgiram centenas de policiais devidamente armados, espancando, pisoteando, ferindo a todos indistintamente. Nesse tumulto coletivo estourou uma bomba, provocando mortes generalizadas. Os jornais de época qualificaram este quadro de verdadeira chacina contra a classe operária.

No Brasil, esta proclamação chegou logo após a abolição da escravatura, não provocando nenhuma mobilização social. Contudo, historiadores afirmam, que a primeira cidade com a primazia de realizar uma reunião comemorativa do 1º de Maio foi Santos, em 1895 sob a direção do Centro Socialista. Para Euclides da Cunha, autor de Os Sertões, a data do 1º de Maio foi adotada para a comemoração dos trabalhadores pelo Congresso Internacional de Paris no ano de 1889 e confirmada pelos congressos de Bruxelas e Zurique em 1891 e 1892.

Para esse fim, garante o renomado autor brasileiro, é mister promover a solidariedade entre todos os que formam a imensa maioria dos oprimidos, sobre quem pesam as grandes injustiças das instituições e preconceitos sociais da atualidade destinada a desaparecer para que reine a paz e a felicidade entre os povos civilizados.

Em 3 de novembro de 1929, Getúlio Vargas assume a Presidência da República e, praticamente um ano depois, em 26 de novembro dd 1930 baixou Decreto nº 19.433, criando o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio. Nesta perspectiva proclamou o Decreto nº 21.364, de maio de 1932, regulamentando a jornada de oito horas diárias para o trabalho industrial. Entre outros atos, o Governo Vargas regulamentou a sindicalização das classes patronais e operárias, controlando toda e qualquer manifestação dos sindicatos.

Em Manaus, as manifestações do 1º Maio ecoavam na Casa do Trabalhador às vezes como protestos ou motivações populistas. Dos protestos são lembrados os gráficos, portuários, comerciários, jornalistas e estudantes dos grêmios.

A partir de 1980, com a criação do Sindicato dos Metalúrgicos e Organização dos Professores, a luta dos trabalhadores do Parque Industrial de Manaus, bem como de outros segmentos produtivos do Amazonas, ganhou força para garantir novos acordos coletivos, o que merece ser celebrado neste dia do trabalho.

No entanto, compete aos trabalhadores exigirem das corporações empresarias a efetiva responsabilidade social, em particular, referente às empresas do Pólo Industrial de Manaus, que se beneficiam diretamente dos incentivos fiscais.

Atualmente, os trabalhadores enfrentam novos desafios, exigindo de suas lideranças concepções ancoradas em paradigmas sustentáveis, que resultem em projetos, com estratégia de cooperação definida, que promovam a cultura empreendedora, focando o trabalho como processo gerador de conhecimento e produtor de novas tecnologias.

Para tanto, é necessário romper com os limites, formulando propostas e projetos sociais criativos, que inaugurem novas formas de fazer e saber fazer, qualificando o trabalhador direto e melhorando o serviço a ser oferecido no mercado. Assim, o trabalho será um constante aprendizado no universo competitivo a ser celebrado por todos os trabalhadores com dignidade e respeito pelo reconhecimento de sua competência e habilidade.

* É antropólogo e professor da UFAM e supervisor do Núcleo de Cultura Política do Amazonas (NCPAM). Email: ncpamz@gmail.com


- Postado por: Comissão Editorial às 10h12 AM
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O DIA DO TRABALHADOR!?

Imagem: www.fotoseimagens.blogs.sapo.pt

* Cleison Fernandes de Souza

Não há economia no mundo em que o desenvolvimento e o crescimento ocorram sem a presença ou a atuação do trabalhador. Especialmente no Brasil, onde a maioria da mão-de-obra tem que conviver quase todos os dias com péssimas condições de trabalho, longas jornadas de trabalho, instabilidade no emprego e um salário vergonhoso que não atende de forma precisa as suas necessidades básicas.

Não se trata de discutir aqui, proletariado tampouco formas de opressão ou de dominação. A questão que proponho é a idéia de uma reflexão sobre os fatores que podem nos levar a definir se o trabalhador brasileiro tem de fato, elementos necessários para se comemorar algo de efetivo nessa data.

Penso que o dia do trabalhador por mais que seja "uma data a se comemorar", é também um ótimo momento para se propor alternativas que visem um reconhecimento mais significativo a eles, que contribuem de forma intensa para o desenvolvimento do país.

Acredito, é um ótimo momento também, independente de uma análise sobre esse dia, de perguntar ao próprio trabalhador brasileiro – o motivo dessa data comemorativa – se ele tem algo de fato a comemorar, de se orgulhar nesse dia, quais são as suas perspectivas de vida, de crescimento profissional, se ele tem noção da importância que ele representa para a nação, como parte integrante da locomotiva econômica.

Por outro lado devemos considerar que essa discussão gira em torno do trabalhador e o "seu dia", mas não devemos esquecer que na outra ponta existe também os trabalhadores desempregados, ou seja, os que estão fora do mercado de trabalho, ou mesmo na informalidade.

Se a questão que proponho é levantar uma discussão sobre o que realmente há de preponderante nessa data em termos de ganhos, de conquista para o trabalhador, a questão dos "trabalhadores sem trabalho" deve ser mais clara, intensa e profunda, uma vez que o desemprego gera muitos tipos de violência, em seqüência graves problemas sociais, e por tabela, violência e problemas sociais geram custo para o país, que gasta muito onde não deveria gastar, investimentos que em tese seriam muito mais eficientes se fossem direcionados à geração de emprego, renda e cidadania, ou seja, fossem direcionados de fato ao trabalhador.

Em suma, o dia do trabalhador está mais para uma reflexão profunda, sobre o papel que lhe cabe, enquanto importante figura no processo econômico do país, do que para uma mera "comemoração", data que muitas vezes é usada apenas para mascarar a realidade.

Mesmo assim, parabéns aos trabalhadores do Brasil e do mundo, afinal o trabalho produz riquezas, agrega valores, produz transformação social, empurra o crescimento de forma mais rápida, gera satisfação, felicidade, que os trabalhadores do Brasil e do mundo possam usufruir também de todo esse processo, e que tudo isso gere de fato subsídios mais contundentes para o trabalhador comemorar a sua data com mais dignidade, melhores condições de trabalhão e salários mais decentes, viva o dia do trabalhador.

* Estudante da Faculdade de Educação da Universidade Estadual do Amazonas (UEA). Contato: ncpamz@gmail.com


- Postado por: Comissão Editorial às 09h58 AM
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SOCIEDADE ANÔNIMA

Foto: www.www.projectrebirth.org

* Khemerson de Melo Macedo

Quem construiu a Tebas de sete portas?/ Nos livros estão nomes de reis./Arrastaram eles os blocos de pedras?/ (...) / Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha da China ficou pronta?/ A grande Roma está cheia de arcos do triunfo./ Quem os ergueu? Sobre quem triunfaram os césares? (B. Brecht).

Esta citação nos mostra o quão equivocado (ou mesmo tendenciosa) é a História Oficial, ao personalizar fatos e outros acontecimentos em prol de uma pessoa, ou grupos de pessoas, legando aos outros partícipes a condição subserviente de coadjuvante da história. Esta citação é oportuna pois nos serve de suporte para ajudar-nos a contar um pouco esta condição marginalizada dos verdadeiros protagonistas da História, a saber, a grande massa de trabalhadores e outros atores que juntos modificam a História cotidianamente.

Como disse, os verdadeiros protagonistas da História não são aqueles que aparecem nos livros; são anônimos, estão nos recônditos dos mais diferentes espaços geográficos, esquecidos pelos historiadores e lembrados apenas pela memória de seus pares; são construtores, lutando cotidianamente contra as injustiças que teimam em persegui-los; são trabalhadores, as forças motrizes da História.

Não quero aqui fazer um discurso apaixonado do tema. Quero apenas discutir o outro lado dos discursos oficiais. Nesse sentido, afirmo que a validade do relato histórico não está no fato como um todo, mas no seu aspecto mais efêmero; no processo de contar o fato, o que fica é o ícone, ou seja, não importa o acontecimento, quem ganha os créditos são sempre as figuras que estavam à frente: presidentes, generais, inventores, etc., a grande massa some, como se não fosse importante sua participação.

Pelo contrário. Nada melhor, contar uma história do que recorrer à oralidade daqueles que viveram fatos históricos recentes, ou herdaram histórias passadas de seus antepassados. Além do mais, nenhum general ganha uma guerra, por exemplo, sem o empenho abnegado de seu exército, só pra se ter uma idéia.

O leitor que me acompanha já percebeu que não estou fazendo um artigo sobre o Dia do Trabalhador muito comum. Poderia ficar horas falando sobre a importância do trabalhador para a sociedade, para o funcionamento do sistema, mas seria no mínimo complacente, já que estaria concordando com a condição de “dominado” que o trabalhador é submetido, que se sustenta a partir da hipocrisia do sistema vigente.

A hipocrisia da História Oficial esconde não apenas o papel dos trabalhadores e da grande massa como um todo, no processo de se fazer História, esconde também o processo de alienação aos quais estes estão submersos, não só no processo das relações de trabalho, mas também nas relações políticas entre os homens, pré-condição básica à relação dominante/ dominado, desconfigurando o verdadeiro protagonista do seu status que lhe é de direito, sabotando-os de seu papel histórico, submetendo-os, enfim, à vontade de seus “heróis”.

O leitor já deve ter percebido que não me restrinjo, ao falar de trabalhador, ao empregado de uma fábrica qualquer, mas a todo aquele indivíduo capaz de produzir consciência acerca de sua realidade, embora tenha dificuldades de entender sua condição histórica. Falo do público, não de seus supostos “heróis”.

Nesse Dia do Trabalhador, nada melhor do que lembrar que o trabalhador é ao mesmo tempo, narrador e ouvinte de sua época, e esquecer esse pré-requisito é negar a História como interpretação, pois a História Oficial rege-se, costumeiramente, como manual, sem direito a reflexões aprofundadas, ditadas pelos discursos dominantes, embotando nossas percepções e doutrinando nossos pensamentos. Cabe ao trabalhador sair do anonimato e tomar nas mãos as rédeas de seu próprio devir.

* Coordenador do Núcleo de Cultura Política do Amazonas e Graduando do Curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas - UFAM. Contato: ncpamz@gmail.com


- Postado por: Comissão Editorial às 09h35 AM
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O TRABALHO E SUAS METAMORFOSES

Foto: www.bolognanihil.blogspot.com

* Kleiner José Frutuoso Michiles

Desde que o homem surgiu enquanto tal, o trabalho passou a fazer parte do seu cotidiano como fator essencial para organização da sociedade, na produção dos bens e serviços necessários a sua existência. O trabalho é uma condição específica do homem e está associado a certo nível de desenvolvimento dos instrumentos de trabalho (grau de aperfeiçoamento das forças produtivas) e da divisão da atividade produtiva entre os diversos membros de um agrupamento social.

Assim, o trabalho assumiu formas particulares nos diversos modos de produção que se consolidaram ao longo da história humana . Nas comunidades primitivas tinha caráter solidário, coletivo, ao passo que nas sociedades de classe (escravista,feudal e capitalista) tornou-se alienado, opressor e coercitivo para milhares de seres humanos.

Na Roma antiga e depois durante o todo o Feudalismo, o trabalho e o trabalhador eram visto como algo menor, longe do ideal de homem a ser perseguido naquela época. Com a implosão do antigo regime e com advento do capitalismo, a visão de mundo individualista subjacente ao liberalismo clássico, tornou-se a ideologia dominante desse novo sistema econômico, que estruturou seu credo político e psicológico em quatro pressupostos básicos da natureza humana.

Os ideólogos do liberalismo sustentavam que todo homem é egoísta , frio, calculista e essencialmente atomista. Figura como Hobbes, com sua tese sobre o egoísmo humano e posteriormente Jeremy Bentham com seu hedonismo psicológico, afirmando que “todas as ações são motivadas pelo desejo de obter o prazer e evitar a dor”, e ainda, pensadores eminentes desse período como John Locke, Bernard Mandeville, David Hartley, Abraham Tucker e Adam Smith atribuíram ao intelecto humano um papel extremamente significativo.

Mesmo que todas as motivações tenham origem na dor, as decisões que os indivíduos tomam quanto a prazeres ou dores estribam-se numa avaliação fria e racional das situações. Para eles, é a razão quem dita a necessidade de avaliar todas as alternativas que determinada situação coloca para que a escolha recaia sobre a quem oferece o Máximo de prazer e o mínimo de dor. Bem, aí está a vertente calculista e intelectual da teoria psicológica do liberalismo clássico que confere ênfase a avaliação racional dos prazeres e dores e, em contrapartida, o menosprezo pelo capricho, o instinto, o hábito o costume e as convenções.

A visão de que os indivíduos são essencialmente inertes resulta da noção de que a busca do prazer e a rejeição a dor constituem os únicos estímulos do homem, ou seja, se os homens não encontrassem atividades que lhes proporcionassem prazeres ou dores ficariam reduzidos à inércia, a imobilidade e a indolência. A conseqüência prática dessa doutrina foi a crença largamente difundida na época, de que os trabalhadores eram incuravelmente preguiçosos. E que somente uma grande recompensa, ou o pavor da fome e de outras privações os obrigaria trabalhar.

Essa visão preconceituosa sempre norteou o pensamento das elites nas sociedades de classe, mesmo com a evolução dos modos de produção e das transformações ocorridas no mundo do trabalho, do escravismo ao capitalismo com sua ideologia liberal, a classe trabalhadora, ou classe que vive do trabalho, ainda continua distante do lugar que merecidamente lhe cabe nesta sociedade. Embora, tenha conquistado a duras penas certa qualidade de vida nos países capitalistas centrais, uma quantidade enorme de trabalhadores na periferia do sistema sobrevivem à margem de seus direitos básicos, sem escola, sem saúde, sem alimentação adequada, sem cidadania e sem futuro.

Com o advento da globalização a situação se complicou ainda mais, pois o poder de barganha dos trabalhadores diminuiu consideravelmente com o enfraquecimento dos sindicatos, que agora lutam para manter o emprego e não mais para transformar a sociedade. A ameaça constante do desemprego gerado pela automação e pela reorganização da produção em escala planetária abalou de forma colossal o cotidiano dos trabalhadores em todo mundo.

Mesmo nos países centrais, aceita-se a redução de salário com vista à manutenção do emprego. Em alguns países europeus essa tática não funcionou, pois trouxe prejuízos para a qualidade dos produtos que foram considerados inferiores aqueles produzidos por trabalhadores que recebiam salários integrais.

E como se não bastasse, nos países em que se adotou o modelo de organização da produção e do trabalho conhecido como Toyotismo, a situação é muito pior. Aqui o trabalho alcança ritmos de pressão e desgaste físico sem precedente em toda a história do trabalho assalariado.

Sabe-se que a exploração máxima do trabalho é marca registrada do capitalismo no aprofundamento de suas relações fundamentais, porém a espoliação do trabalhador no sistema japonês não tem comparação na historia . As características principais desse sistema são: “autonomação” gerenciamento JIT, trabalho em equipe, management by stress, flexibilidade da força de trabalho, subcontratação e gerenciamento participativo.

“Autonomação” é uma palavra que combina os conceitos de autônomo e automação. Não significa apenas, funcionamento automático, mas parada em caso de defeitos. Essa técnica não foi introduzida na forma com se usava na industria têxtil, na qual as máquinas tinham o controle autônomo dos defeitos, o qual garante o funcionamento e parada automática no caso de defeito na operação de fabricação e permite a máquina funcionar só sem interrupção e sem supervisores.

O JIT ou O just- in- time é uma forma de gerenciar a produção bem diferente da utilizada pelos princípios fordistas, os quais se sustentam num ordenamento que se inicia com a produção em massa, deixando para pensar depois na distribuição na venda . Com o JIT, a produção é acionada pela demanda (venda) que, através dos comandos sucessivos, disponibiliza componentes no lugar, hora e quantidade necessária à fabricação das unidades desejadas, vendidas antecipadamente.

Isso livra a empresa da preocupação de trabalhar com estoque, fazendo com que haja uma perfeita sintonia entre a estratégia de produção e a estratégia de mercado. Os efeitos dessa racionalização sobre o trabalho são brutais, pois permitem o aproveitamento completo da jornada, diminuindo todos os mínimos de espaços de tempo e movimento que possivelmente a linha fordistas tenha deixado escapar.

Juntando todas essas características, temos aí a expressão: management by stress que significa direção da produção por estresse. Creio que somente esta expressão sintetiza bem o que é viver sob esta forma de organização da produção para milhões de trabalhadores.

E assim, diante de condições tão adversas sem nenhuma alternativa concreta ao modo de produção vigente , chegamos a mais um 1° de maio, dia em que sobram motivos para refletir e faltam razões para comemorar. Contudo, se pensarmos que todos os modelos de organização das sociedades foram construções sociais, ainda podemos ter a esperança, pois tudo que foi socialmente construído, também pode ser desconstruído e isto a história já provou ser verdade.

* Estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Contato: ncpamz@gmail.com 


- Postado por: Comissão Editorial às 09h11 AM
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29/4/07

MIRANTE DO COTIDIANO

Foto: Otoni Mesquita

A plasticidade da imagem retrata a presença humana sobre as águas da Comunidade do Livramento, área rural de Manaus, situada a 20 quilômetros do Centro Histórico da Capital do Amazonas às margens do rio Negro, nos arredores do Tarumã.

O flutuante em tela é morada de Olga e Luís, onde penduram a rede para dormir e sonhar num mundo possível com tolerância e justiça social amparado na solidariedade sustentável, sob o domínio da natureza viva que se impõe aos hospedeiros como condição de sua própria existência.

A opção de Olga e Luís pela felicidade verde inaugura uma prática cultural biocentrica, a cultivar novas formas de vida e qualidade existencial do homem sincronizado com os ecossistemas ambientais mergulhados no simbolismo que o cerca.

Em terra firme os protagonistas junto com a Comunidade inauguraram no dia 28 passado o Centro Cultural Oca Gabriel Gentil: Séribhi Tëoñari, em reconhecimento ao Kumu (Pajé) Tukano, que no dia 27 de maio completará 1 ano de morto.

O ato de inauguração contou com a presença dos parentes indígenas do Kumu Gabriel, que cantaram e dançaram a festa do Dabucuri para celebrar o encontro dos homens e dos espíritos vindo das águas e da floresta para interagir no universo mítico da criação, operando força para que se proteja a natureza, as culturas e suas variadas formas de vida.


- Postado por: Comissão Editorial às 09h14 AM
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