12/5/07
A MÁSCARA DA MORTE RUBRA

* Ricardo Lima
Idade média; uma terrível praga, a Morte Rubra, assolava um país europeu. Os sintomas desta peste era uma hemorragia fatal por todos os poros do corpo, principalmente pela região facial, seguindo-se a decomposição e a morte do infeliz contaminado. O pior de tudo era que o processo do aparecimento da doença e sua consumação não duravam cerca de meia hora.
Mas este país tinha como soberano o Príncipe Próspero, um homem audacioso e prudente. Para tomar as precauções necessárias da sua sobrevivência, o nobre refugia-se em uma poderosa abadia fortificada, leva junto todos os seus súditos das corte, abastece-a com mantimentos, riquezas, músicos, atores, bailarinos, tudo que pudesse prover ao fidalgo e seus seguidores o mais profundo luxo e gozo.
Então manda soldar os portões da fortaleza e estabelece ordens de não permitir que ninguém saia ou entre, sob o risco de execução sumária. O Príncipe pensava com isso que poderia desafiar a temível doença. “Enquanto isso, era tolice lamentar os mortos ou até mesmo pensar neles.” Dentro da abadia havia beleza, segurança, vinho e comida; lá fora, a terrível Morte Rubra. Até porque “o Mundo exterior que cuidasse de si mesmo.”
Então vários meses passaram-se, quando a pestilência rugia mais furiosamente por todos os recantos do país, o Príncipe Próspero e seus seguidores gozavam da maior segurança e luxo possíveis, entre festas, intrigas e banquetes, eram felizes; foi quando o nobre resolveu dar um baile de mascaras “de magnificência ainda maior que a usual.”
O lugar da abadia onde a mascarada ocorreu foi num ambiente de sete salões de grande suntuosidade. Na câmara mais a ocidente, de tom negro, o efeito provocado pelas luzes dos candelabros era de um tom tão sinistro e aterrorizante nas faces dos que por ali se aventuravam.
O baile magnífico fora decorado pelo sagaz Príncipe Próspero, cujo gosto e sensibilidades espelhavam o gênio do próprio nobre, uma ousadia que chegava a beirar as fronteiras do bárbaro e do insano.
A festa seguia-se alegre, entre muito “brilho, purpurina, esplendor e detalhes berrantes e fantasmagóricos.” Mas houve um momento em que os convivas perceberam a presença de uma estranha figura, “alta, esquálida, amortalhada das cabeças aos pés” (...) cuja máscara fora confeccionada de modo a lembrar, nos mínimos detalhes (...) “os sintomas externos da morte rubra.” Todos os foliões, ao ver a criatura, são tomados da intensa repulsa e, aterrorizados, afastam-se enquanto a pessoa fantasiada desfila entre eles.
Quando o Príncipe Próspero, vendo o sujeito, é tomado de uma ira terrível e grita: “quem ousa insultar-nos com essa farsa sacrílega? Agarrem-no e tirem-lhe a mascara para que saibamos quem vamos enforcar amanhã de manhã!”
Mas ninguém ousou tocar na criatura, que deslizou, lenta e tétrica, até o salão escarlate. O Soberano, vendo a covardia dos seus súditos, avança até a fantasiada e, alcançando-o saca o punhal para matá-lo... então ouviu-se por todos os salões um grito agudo e nefasto, era o corpo do príncipe “que caíra fulminado pela morte”.
Quando os foliões correram para ajudar seu Líder e agarraram a criatura, foram tomados por um terror inexprimível ao saber “que a mortalha funérea e a máscara mortuária não possuíam nenhuma forma tangível.”
Foi então conhecida a terrível verdade. A Morte Rubra penetrara, como um ladrão, na abadia e um por um, os convivas da festa foram caindo, “fulminados pela morte.” Quando o último ser vivo do lugar morreu contaminado pela doença, a terrível praga assumiu o controle como rainha absoluta de toda a fortaleza...
O Brasil também padece de sua terrível Morte Rubra, a violência, outrora devastando as vidas dos que não podiam se defender, penetrou, como um “ladrão à noite,” nas abadias fortificadas erigidas pela elite para se proteger do terrível contágio, e agora começa a ceifar as vidas de muitos Príncipes Prósperos e de seus súditos por todo o país. Como conseguiremos o antídoto?
* Pesquisador do Núcleo de Cultura Política do Amazonas e graduando de Ciências Sociais da Ufam. " Inspirado do conto A Máscara da Morte Rubra de Edgar Allan Poe" Contato: ncpamz@gmail.com
- Postado por: Comissão Editorial às 01h17 PM
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10/5/07
O PIM E A QUESTÃO AMBIENTAL

Imagem: www.zetex.com/
* Ademir Ramos
A Superintendência da Zona Franca de Manaus (SUFRAMA) registra em sua página eletrônica que “as empresas do Pólo Industrial de Manaus (PIM) iniciaram 2007 com faturamento 16,3% maior. Foram US$ 1,695 bilhão em janeiro passado contra US$ 1,4 bilhão no mesmo mês de 2006”.
Um dos segmentos que vem impulsionando esse faturamento, segundo a SUFRAMA, são os de alto índice de valor agregado, como os produtores de TV com Tela de Cristal Liquido (LCD), os de microcomputadores e outros baseados na microeletronica.
A produção do PIM, que tem garantido aproximadamente cem mil empregos diretos, é toda volta para exportação, sendo esse mercado regulado por leis dos países exportadores.
Dessa feita, alertamos para as exigências que a Comunidade Européia vem impondo as exportações de produtos eletrônicos desde de julho de 2006, quando foi aprovada a Nova Lei, que proíbe o uso do chumbo em todo e quaisquer equipamentos eletrônicos. Da mesma forma, na Califórnia, nos Estados Unidos da América, a aprovação da lei chamada “RoHs da Califórnia” está amparada nos mesmos postulados legais promulgados pela União Européia.
Para os especialistas, a sigla RoHS (Restriction of Certain Hazardous Substances), que em português significa - Restrição de Certas Substâncias Perigosas - condensa um conjunto de leis que proíbe o uso industrial de certas substâncias perigosas em processo de fabricação de produtos, tais como: cádmio (Cd), mercúrio (Hg), cromo hexavalente (Cr(VI)), bifenilos polibromados (PBBs), éteres difenil-polibromados (PBDEs) e chumbo (Pb).
A sigla também está sendo conhecida como “a lei do sem chumbo” (lead-free), com extensa documentação nas páginas eletrônica on-line.
Por força de lei, os produtores do PIM que dependem do mercado Europeu tiveram que adequar seus produtos às exigências impostas, provocando grande impacto nos custos de sua produção. Para as multinacionais européias, o problema foi minimizado com a transferência de tecnologia das matrizes para as filiais no Amazonas.
E como fica a indústria nacional que carece de domínio de tecnologia e competência para se garantir no mercado internacional? Isso é, se quisermos pelos menos fortalecer os postos de trabalho em seu patamar atual. Pois, estamos convencidos que “a lei do sem chumbo” inaugurado pela Europa como política sustentável deve generalizar-se, exigindo das corporações efetiva responsabilidade social e ambiental por todo o mundo. O fato é incontestável, afirmam os especialistas, a solda tradicional é composta de 60% de estanho (Sn) e 40% de chumbo (Pb) e a partir do padrão europeu instituído, os fabricantes terão que substituir os metais proibidos pela prata, o cobre e o bismuto, em toda cadeia produtiva, inclusive, em sua manutenção.
Na verdade é muito mais do que isso. Trata-se de uma política de Pesquisa & Desenvolvimento, o que o Brasil não tem, porque os governantes não priorizaram a pesquisa científica e a invenção de novas tecnologias como estratégia de desenvolvimento endógeno.
Contrário a acumulação primitiva do capital, bem como a contradição capital e trabalho – natureza, o posicionamento do movimento social europeu denuncia a depredação do meio ambiente sob nova lógica do capital fundada, unicamente, no lucro imediato e nas oportunidades de mercado, criando insustentabilidade de vida no planeta.
Quanto ao chumbo, está comprovado que sua disseminação provoca tamanha desgraça na qualidade de vida na terra, é o que explica a professora de toxicologia do Departamento de Patologia da Universidade Federal de Santa Catarina, Claudia Regina dos Santos, em entrevista a revista “Com ciência Ambiental nº 10”.
Os especialistas, quanto à matéria em discussão, são unânimes em reconhecer que o descarte desses equipamentos eletrônicos em lixões a céu aberto, não tem nenhum controle para se evitar o impacto causado ao homem e ao meio ambiente.
A chuva ácida dissolve o chumbo e outras substâncias perigosas dos equipamentos e contamina os lençóis freáticos, provocando danos também ao sistema nervoso, alterando sensivelmente o comportamento dos atores, quando em contato permanente com esta realidade.
A discussão está posta, com a palavra os especialistas. No entanto, é urgente que se saiba para onde as indústrias do PIM descartam esses equipamentos e, sobretudo, os resíduos desses metais perigosos. É oportuno, que as Universidades, as demais Agências de pesquisa e o Ministério Público Federal examinem a qualidade das águas dos igarapés – o braço de rio – e do seu entorno, avaliando o impacto causado tanto ao meio ambiente quanto aos ribeirinhos urbanos que abrigam as encostas dos igarapés de Manaus.
* É antropólogo e professor da UFAM e supervisor do Núcleo de Cultura Política do Amazonas (NCPAM). Email: ncpamz@gmail.com
- Postado por: Comissão Editorial às 01h05 PM
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8/5/07
A AMAZÔNIA PEDE SOCORRO

* Cleison Fernandes de Souza
Que as grandes potências mundiais têm grande interesse na Amazônia, isso não é novidade pra mais ninguém. Um recente relatório produzido meses atrás pela ONU (segunda parte do relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas “IPCC, em inglês”) trouxe de novo à discussão sobre a questão da segurança da Amazônia.
Biodiversidade, fauna, flora, riqueza minerais, vegetais e o objeto mais cobiçado por todos os países nessa era contemporânea - a água doce e potável continuam sendo elementos abundantes no coração do mundo.
Não é só questão da riqueza que a Amazônia possui e deve entrar nessa discussão, mas também a questão do total descontrole ambiental que presenciamos hoje, como as queimadas, o monóxido de carbono despejado todos os dias no ar, a poluição visual, sonora, industrial, a busca desenfreada das grandes empresas por grandes lucros muitas vezes não leva em consideração a capacidade que a natureza tem de suportar esses impactos.
A resposta vem em forma de catástrofes, enchentes, desequilíbrios ambientais dos mais variados possíveis. É nesse contexto que a Amazônia pede socorro, ameaça sangrar, grita, urge desesperadamente para os quatro cantos do mundo em busca da sua sobrevivência.
Apesar do mundo se fazer de surdo para esse grito desesperador e de boa parte da floresta ainda permanecer intocável, as devastações, as grilagens de terras, as queimadas estão cada vez mais freqüentes.
O que chamo a atenção não é apenas para a questão da preservação da nossa biodiversidade que deve sim ser mantida e protegida, e sim para a Amazônia como uma questão de Segurança Nacional.
Haverá um tempo em que as manchetes dos jornais falarão de 10 mil mortes em um único dia pelo calor insuportável provocado pelo aquecimento global. Em uma única tempestade, vilas, cidades inteiras desaparecerão, as geleiras já não mais existirão, o aumento dos oceanos provocará inundações em muitas cidades que se converterão em meros cemitérios aquáticos, e uma provável guerra pelo controle da biodiversidade e principalmente da água doce da Amazônia é uma hipótese cada vez mais provável, tenebrosa e sombria.
A questão agora dada às devidas proporções é sobre o nível de atenção que está sendo destinada a essas possibilidades, visto que em questões de Segurança Nacional não há apenas o fator de inteligência dos governos, mas envolve também a questão de uma ampla mobilização, seja ela civil, social e política. Qualquer espanto diante do exposto é apenas um sinal de alerta, estejamos atentos a esses fatos, todos nós, amazônidas.
* Estudante da Faculdade de Educação da Universidade Estadual do Amazonas (UEA). Contato: ncpamz@gmail.com
- Postado por: Comissão Editorial às 02h53 PM
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5/5/07
MIRANTE DO COTIDIANO

Foto: Ademir Ramos
A economia da cultura é um processo de articulação sob o domínio dos segmentos artísticos, culturais e econômicos centrado na produção, distribuição e consumo dos bens simbólicos. Nesse mercado, investe-se cada vez mais no fazer criativo, em estreita relação com a mídia, agregando valor a produtos dos mais variados tipos, movido pelo fascínio da obra de arte em si e para o mercado.
Em Brasília, o NCPAM foi convidado a conhecer o acervo (foto) do artista plástico Ivan Muniz Almeida, que, em quinze anos de trabalho tem colecionado prêmios nacionais e internacionais conforme atesta o Anuário Brasileiro de Artes Plásticas, publicado pela Editora Roma Internacional, bem como a galeria de Arte de Brasília www.artebrasilia.org.br .
Em entrevista com autor registramos o ofício do artista, determinado pelos fantasmas de sua criação, regido pelo domínio da racionalidade técnica capaz de cultivar o belo no esplendor da alquimia das cores e formas.
Nesse momento, o criador e a criatura interagem, dialeticamente, exigindo do autor competência e habilidade para dar forma a sua criação, que por sua vez, pressupõe do admirador ou consumidor potencial, uma compreensão balizada capaz de interpretar e compreender a estrutura significante recortada do imaginário em forma de tela.
Esse fenômeno ocorre, sobretudo, quando participamos das exposições e somos convidados a emitir juízo estético sobre a produção dos artistas. No entanto, o juízo do crítico de arte torna-se insignificante, quando o próprio admirador se espanta com a obra e cria com ela uma relação afetiva, fenomenológica, capaz de tomar para si como verdade estética.
A produção do Artística Plástico Ivan Muniz Almeida é sedutora porque nos faz pensar de forma glacial. Contudo, é significante também, porque nos seduz para o labirinto das corres, com vontade de partilhar com o outro a plasticidade criativa e original que nos encanta platonicamente.
- Postado por: Comissão Editorial às 10h26 PM
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