2/6/07
ETERNAMENTE CHICO BUARQUE

* Kleiner José Frutuoso Michiles
Falar de Chico Buarque não é lá muito fácil, devido ao enorme volume de material que a imprensa nacional e internacional tem publicado a respeito da vida e obra deste extraordinário artista brasileiro. Contudo, deve-se admitir que o Chico se reinventa a cada dia, superando-se, surpreendendo e aperfeiçoando sua arte e assim tornando-se assunto inesgotável.
Foi sempre assim desde que despontou para o cenário artístico em 1964, num festival de Música Popular da extinta TV Excelsior onde concorreu com a música “Sonho de um carnaval” defendido pelo também estreante Geraldo Vandré que a levou até as finais perdendo somente para Elis Regina, que aliás, foi a grande vencedora deste festival com a música “Arrastão”.
Filho do eminente historiador e sociólogo Sergio Buarque de Holanda, esse carioca da gema apaixonado por samba, futebol e torcedor do Fluminense, conheceu a fama muito cedo. Logo após o festival da Excelsior, sua presença nos palcos do teatro Paramount tornou-se obrigatória dividindo o mesmo com figuras como Taiguara, Toquinho, e outros. Ainda no Paramount, Chico lança a música “Pedro Pedreiro” que soa como um alerta para o grande artista que acabava de emergir.
Depois de um ano de trabalho junto ao Teatro da Universidade Católica de São Paulo (TUCA), Chico embarca para Nancy na França onde participaria com o grupo de um dos mais famosos festivais de teatro do mundo, assinando a trilha sonora da peça que era nada mais, nada menos, que “Vida e Morte Severina” de João Cabral de Melo Neto, que viajou com elenco e foi quem mais vibrou com a vitória brasileira.
As portas para o mundo foram abertas com essa vitoriosa participação. Em 1966, vem a consagração definitiva quando Chico ganha o festival da Record com famosa “Banda” música que aliás, foi alvo de duras críticas quando os jurados anunciaram-na como vencedora, devido ao teor da letra ser considerada muito lírica para aquele contexto de ditadura repressão coisa e tal.
É claro que a “Banda” podia ser considerada lírica se comparada a “Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores” de Geraldo Vandré que ficou em segundo lugar, daí o inconformismo do público. Entretanto, mesmo sendo percebida pelo público como uma música “romântica”, a música Banda não é de todo assim tão inocente, tem um trecho que diz : “a minha gente sofrida despediu-se da dor, pra ver a banda passar, cantando coisas de amor”.
Como se vê, Chico toca na questão social mesmo de leve, é a crença na força libertária da música que é capaz de fazer com que todos venham para a janela e esqueçam o “cansaço”, desde a moça feia, o velho, o homem que contava dinheiro enfim, todos querem ver a Banda passar cantando coisas de amor.
Após esses acontecimentos, o contexto político tornou-se ainda mais difícil, a ditadura apertou o cerco intensificando a censura, prisões, baixando os famosos Atos Institucionais, e o Chico também entraria no jogo pra valer, como ele mesmo afirma na música Falando Sério - “dei um chute no lirismo, um pega no cachorro, um tiro no sabiá, joguei fora o violino, corro e faço a mala pra não ver a banda passar”. Aqui, o gênio assume de vez o seu papel de artista engajado na transformação daquela dura realidade, que doravante iria lhe causar sérios aborrecimentos.
Contudo, a genialidade de Chico não se revelou somente no campo político durante os anos de “chumbo”, ele é também um profundo conhecedor da alma humana, alguns diriam da alma feminina, pelo grande número de canções que tratam da diversidade de situações ligadas ao gênero feminino.
São tantas, que a escritora Adélia Prado resolveu fazer um livro só sobre : “O Universo Feminino nas Músicas de Chico Buarque”. Neste universo imaginário criado por Chico, desfilam Ritas pragmáticas, Carolinas desatentas, Rosas dissimuladas, Marias que sonham com um olhar diferente do homem amado, Joanas, Claras e etc. E assim, ele desnuda em cada personagem o que há de mais secreto, de mais íntimo no recôndito da alma humana.
Além do conhecimento profundo do ser humano, Chico é também um erudito da língua portuguesa, afirmação que se comprova em músicas como Construção, Paroara, Pedro Pedreiro e tantas outras. Em Construção, o arquiteto se revela construindo cada palavra onde a pronuncia tônica recai sempre na última sílaba, e nas três vezes em que a música é repetida as frases são construídas de forma diferente mas sem perder sentido.
Isso tudo faz de Chico poeta, escritor, compositor letrista e o maior cancioneiro da atualidade. Quando comparado a Bob Dylan - Véronique Mortaigne (colunista do Le Monde) diz que Chico leva vantagem. Pois além da força de suas letras, a harmonia e a sofisticação na elaboração dos arranjos não têm comparação. Em Cecília, música do disco As Cidades, Chico utiliza nada mais, nada menos que 34 instrumentos que perfazem uma verdadeira orquestra fantástica, afinadíssima regida com bom gosto e muita competência.
Em suma, pode-se afirmar sem sombra de dúvidas, que música brasileira não seria a mesma sem Chico Buarque. Sua influência vai muito além da música, embora ele a utilize como uma forma de chamar a atenção para os problemas da atualidade, ao mesmo tempo constrói novas consciências, novas leituras a respeito da realidade. É muito difícil alguém ouvir o Chico e continuar vazio, sem nenhuma indagação acerca do que ouviu ou leu, já que ele escreve tão bem quanto compõe.
Seus livros num total de três (Estorvo, Benjamim, e Budapeste) sem contar as peças todas premiadíssimas, dentro e fora do país. Em 2005, o jornal Le Monde ofereceu um prêmio altíssimo em dinheiro para quem fizesse a melhor resenha sobre livro Budapeste. E os eleitores se perguntaram por que o livro do Chico? A resposta foi simples: a obra pertence ao um cara que carrega consigo uma boa parte do conhecimento produzido desde os gregos até a atualidade.
Nas obras do Chico perfilam Tolstoi, Dostoievski, Goethe, Fernando Pessoa, Brecht e tantos outros que representam a “nata” da literatura universal. E se tudo que aqui foi dito acerca deste artista genial, faz algum sentido, então há motivos de sobra para dizer que ele será eterno ou eternamente Chico Buarque!!!
* Estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Contato: ncpamz@gmail.com
- Postado por: Comissão Editorial às 11h46 AM
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31/5/07
PRECISAMOS DE UM ESTADO HOBBESIANO

* Ricardo Lima
Uma das características mais fundamentais da barbárie é o colapso do modo de produção, com a incapacidade de distribuir eqüitativamente toda a riqueza produzida, concentrando-a em uma pequena casta dirigente; acrescente a falta de coerção de um estado que, com excesso da miséria, não consegue criar um tampão para uma violência crescente à sua capacidade coercitiva.
Então se pode dizer que, ao analisar a condição de guerra civil, assim como a disfunção completa das instituições democráticas em nosso país, ela parece idêntica à “condição natural da humanidade relativamente à sua felicidade e miséria” descrita pelo inglês Thomas Hobbes (1588-1679) em seu livro “Leviatã.”
Ora, primeiramente, Hobbes tinha, assim como Maquiavel, uma visão cética do homem, um ser completamente egoísta, sendo que a vida, como a de outroa seres vivos, seria uma corrida na qual o importante seria vencer sempre, e começa com o desejo de posse, de reconhecimento e de proteção, “Estar continuamente ultrapassado é miséria,” sobrepor-se aos outros é a felicidade, quem abandona a competição da vida está morto.
Hobbes afirmava que, na ausência de um poder coercitivo o suficiente para impor o respeito entre os homens, colocando limites a esse impulso egoísta de competição e dominação, a sociedade estaria imersa numa condição de “guerra permanente,” onde todos os homens se bateriam contra todos os homens na tentativa de preservar sua vida, suas propriedades e na cruzada incessante de glória e poder.
Mas essa propensão dos sujeitos à guerra é, segundo Hobbes, uma tendência levada pelas paixões e pela razão, na tentativa dos indivíduos em escapar da morte violenta. Ou seja, no estado primitivo de guerra, “não há sociedade” (...) “e a vida (...) é solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta”.
Se o autor de Leviatã estivesse vivo e observasse a situação da sociedade brasileira, diria que o Estado perdeu o seu caráter de eufemizador da violência, isso decorre do fato de que, segundo o pensador - se o soberano não consegue exercer, de maneira plena, o papel o qual a sociedade civil lhe confiou: proteger os homens da morte violenta.
Portanto o contrato social perde a validade, as instituições desabam, as leis e o soberano perdem a autoridade e os homens voltam àquela terrível condição de guerra e insegurança, ou seja, a barbárie, tal qual falara Sérgio Paulo Rouanet (diplomata e cientista político brasileiro).
Mas qual seria a solução num país cujas taxas de assassinatos são maiores que numa guerra, como a do Iraque? Acredito que a solução, ou pelo menos parte dela, resida no pensamento do pensador maldito - a instauração de um novo pacto, para erigir um estado realmente coercitivo, capaz de fazer valer o respeito entre os homens, por qualquer meio eficaz, pondo um freio realmente eficaz na contenção de seu impulso famélico de poder, riqueza e honra; ousando o suficiente para distribuir igualitariamente as riquezas e benévolo o bastante para punir com justiça.
Por isso afirmo: Precisamos de um estado hobbesiano...
* Pesquisador do Núcleo de Cultura Política do Amazonas e graduando de Ciências Sociais da UFAM. Contato: ncpamz@gmail.com
- Postado por: Comissão Editorial às 01h14 PM
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29/5/07
O SUJO E O MAL LAVADO

* Breno Rodrigo de Messias Leite
No último domingo, 27/05/2007, o jornal A CRÍTICA noticiou a mais nova briguinha entre o prefeito de Manaus, Serafim Corrêa (PSB), e o governador do Amazonas, Eduardo Braga (PMDB).
Logo de cara, na manchete do prestigiado Jornal, afirma-se o seguinte: “Serafim e Braga entram em colisão”. Ao lado da informação, encontram-se duas fotos dos personagens em questão, sendo que cada um está posicionado no seu córner, devidamente calçados com bermudas e luvas de boxe: preparados para a luta!
Entre tantas baixarias de ambos os lados, a reportagem relata os motivos para que os dois governantes se atacassem mutuamente. Do lado do prefeito, as críticas se dirigem principalmente para ausência de segurança pública no Amazonas... Já do lado do governador, as críticas se voltam principalmente para o abandono da administração municipal...
E os assuntos se estendem entre os mais diversos temas e pautas, que vão para além da nossa vã filosofia: Região Metropolitana de Manaus, IPTU, Saúde Pública, Sistema de Transporte Coletivo, Deslizamentos de terras, Médico da Família, PROSAMIM, maternidades, Marcelo Serafim, Porfírio Lemos, Ari Moutinho, Chico Preto, e haja assunto.
A população do Amazonas pode ter uma certeza: tanto o prefeito como o governador conhecem como ninguém a nossa terrinha. E quando um não conhece algum ponto estranho pergunta para o outro que sabe da resposta no ato – na ponta da língua, como 2+2 são 5.
Grandes amazonólogos, eruditos, especialistas antes mesmo de darem algum parecer, se inteligentes são, consultam ou o prefeitinho ou o governadorzinho, pois os dois são os verdadeiros “gênios da raça” (com todo o respeito às memórias do Gal. Golbery e de Darcy Ribeiro).
A cara-de-pau dos dois é tamanha que sequer percebem que ao atirarem um no pé do outro, atiram na verdade no próprio pé. A briga dos dois me lembra muitas vezes aquela brincadeira da molecada na rua quando dois garotos vão brigar: cada um fica de um lado (os brigões), e um terceiro garoto, o mais sacana da turma, aparece no meio e afirma para ambos que a sua mão (sacana) representa a mãe de um ou de outro, e pede para que o mais corajoso cuspa primeiro: é lógico que os dois se cospem mutuamente enquanto a molecada ao redor cai na gargalhada.
A representação das briguinhas na infância permanece cristalizada no inconsciente tanto do prefeito como do governador. Não conseguem perceber que ridicularizam as suas gestões ridículas e fracassadas, que de tão ruim caem numa cilada pública como essa.
Além de o prejuízo ser igualitário, no plano pessoal, a população, por outro lado, sai ganhando com isso, pois passa a conhecer melhor o nível dos seus eleitos e chega à conclusão de que os dois estão no mesmo lugar errado. E como diz a minha mãe e o ditado popular: “é o sujo falando do mal lavado”. Vai entender?
*Analista Político e Coordenador geral de projetos do Núcleo de Cultura Política do Amazonas. Contato: ncpamz@gmail.com
- Postado por: Comissão Editorial às 01h57 PM
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27/5/07
MIRANTE DO COTIDIANO

Foto: Ademir Ramos
A vitalidade da universidade fundamenta-se na prática do ensino, na pesquisa e na extensão de forma intrínseca, motivando professores, alunos e servidores a viverem a universidade enquanto comunidade científica produtora de conhecimento e formas de saber diferenciado.
A inserção dos alunos nos projetos de pesquisa, extensão e no cotidiano das aulas é promissor para que tenhamos uma Instituição de Nível Superior atuante e participativa.
Nesse primeiro semestre de 2007, os calouros de ciências sociais confraternizaram-se com os demais colegas, celebrando no dia 25/05 a festa da colhida, que popularmente chamamos de trote.
Na confraternização, os alunos usaram nariz de palhaço para ironizar e combater a prática política do nepotismo, da impunidade e, sobretudo, da corrupção. O rito de iniciação foi regido por um apitaço capaz de acordar os desatentos e despertar os alienados para o bom combate.
O curso de ciências sociais, neste ano de 2007 está completando 20 anos de realizações, é hora de se fazer um balanço acadêmico quanto à pesquisa e a produção científica pertinente e, principalmente, operacionalizar a demanda dos alunos e professores em relação à reforma curricular, para qualificar cada vez mais os cientistas sociais do Amazonas a intervir nos campos da antropologia, sociologia e da política como intérpretes e formuladores de teorias, de pesquisa-ação, para o exercício do magistério acadêmico, bem como em atenção às políticas de desenvolvimento humano, capazes de mobilizar atores, definindo estratégias eficazes e sustentáveis relativos aos partidos políticos, sociedade civil, comunidades tradicionais, organizações não-governamentais, corporações empresariais, empreendedorismo artístico e cultural e o próprio Estado.
O NCPAM saúda os alunos de ciências sociais e convida a se integrarem de forma interativa, para que juntos desenvolvam competências intelectuais e habilidades técnicas quanto à pesquisa, extensão, produzindo conhecimento a ser amplamente divulgado em nossa página de trabalho.
- Postado por: Comissão Editorial às 02h39 PM
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