25/8/07
A PRÁXIS EDUCACIONAL

A esquerda: Paulo Freire/ a direita: Vygotsky
* Breno Rodrigo de Messias Leite
A educação é uma construção humana, histórica e cultural, que pode ter as mais variadas formas e conteúdos, finalidades e convenções. Trata-se aí de um conjunto de princípios estabelecidos socialmente que levam em consideração as dadas especificidades de cada formação humana. E como afirma o próprio Paulo Freire “a educação, especificidade humana, como um ato de intervenção no mundo” (p. 109, Pedagogia da Autonomia).
Mas, como sabemos, todo processo educacional, assim posto, é marcado por contradições e conflito. Justamente por ser uma construção humana, a educação é a tradução real de uma sociedade contraditória e injusta. Desta forma, a suposta separação Escola/Sociedade Civil torna-se, no mundo prático, inviável por suas próprias circunstâncias.
O que está em jogo, em última análise, é a tentativa, apesar de tudo, de manter-se um virtual “equilíbrio” entre a atuação escolar e a ação coletiva. Ou seja, deve-se “tentar” manter no ambiente escolar um espaço propício para o livre desenvolvimento das aptidões, a socialização do conhecimento, bem como da interação primária das crianças, jovens e adultos: nada distante das idéias de Vygotsky e Freire.
As Escolas Pedagógicas no campo da Pedagogia Crítica apresentam duas relevantes contribuições para a atual discussão. De um lado, encontra-se o psicólogo russo Vygotsky; e do outro lado, o educador brasileiro Paulo Freire. Ambos militantes da causa da Educação como instrumento de transformação do homem e da sociedade.
Os dois autores partem da constatação de que a práxis educacional é um fenômeno histórico-concreto instituído pelos homens. Onde os fenômenos devem ser investigados em permanente transformação, pois as mudanças na natureza do homem são produzidas por mudanças na sociedade, assim como nos sistemas de signos os quais foram criados pela própria sociedade.
Para Vygotsky, a relação entre motivação e ensino-aprendizagem é uma construção social. É intermediada e efetivada entre os sujeitos históricos. Na verdade, é no processo de ensino-aprendizagem que ocorre a apropriação da cultura, da motivação e do desenvolvimento individual e afetivo. Em alguma medida, a escola torna-se o espaço em que o contato com a cultura vivida é feito de forma intencional e planejada, a fim de promover a aproximação dialética dos sujeitos e instituições envolvidas no processo. (Bock, Psicologias...)
Vygotsky elabora a teoria da “Zona de Desenvolvimento Proximal” que vem a ser a distância entre o nível de desenvolvimento real e o nível de desenvolvimento potencial, determinado pela solução de questões sob a orientação de um educador. Para Vygotsky, portanto, os conceitos de “aprendizagem”, “motivação” e “desenvolvimento” são igualmente indissociáveis da práxis educativa. (Bock)
Paulo Freire, por sua vez, deu enorme contribuição ao fundar o método de alfabetização de jovens e adultos, que, em síntese, propõe-se a minimizar o hiato existente entre o desenvolvimento educacional e cognitivo da vivência dos sujeitos.
A práxis educacional de Paulo Freire revolucionou a educação latino-americana, na medida em que aproxima a relação educador/educando transformando-a numa relação de fraternidade, alicerçada no respeito mútuo; no fato de que “ensinar não é transferir a inteligência do objeto ao educando, mas instigá-lo no sentido de que, como sujeito cognoscente, se torne capaz de inteligir e comunicar o inteligido” (p. 119).
Pode-se dizer, nesse sentido, que a educação não é um fenômeno dado, mas socialmente construído, pois parte do pressuposto da relação solidária, democrática e profissional do educador e do educando.
A centralidade da práxis educacional de Paulo Freire encontra-se, assim, na sua dinâmica ética e crítica. A proposta de Freire é clara: só a educação pode forjar uma nova sociedade, onde os direitos humanos e solidariedade sejam os imperativos fundamentais.
A propósito da breve discussão sobre a Práxis Educacional de Vigotski e Freire é significativo acrescentar que ambos os autores partem da perspectiva dialética da história para construir um projeto político-pedagógico que faça a interface entre a sociedade civil e a construção do conhecimento.
A convergência encontra-se na natureza crítica e transformadora, uma vez que para Vygotsky e Freire, o processo de ensino-aprendizagem encontra-se no patamar da potencial superação, o que pode traduzir as possibilidades de uma nova forma de sociedade mais humana.
* É analista Político e Coordenador Geral de Pesquisa do Núcleo de Cultura Política do Amazonas - ncpam. Contato: ncpamz@gmail.com
AVISO: O artigo publicado com assinatura é de responsabilidade exclusiva de seu autor.
- Postado por: Comissão Editorial às 07h57 PM
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23/8/07
"CANSEI!" JÁ NASCEU CANSADO

Fonte: www.ocram.wordpress.com
* Ricardo Lima
Algumas dúzias de manifestantes reuniram-se nas ruas de São Paulo para mais um protesto (17/08 passado). Poderia ser um grupo de operários insatisfeitos com a desregulamentação das leis trabalhistas, estudantes das escolas públicas reivindicando melhorias no ensino, algum setor mais combativo da sociedade clamando por uma melhor distribuição de renda para, ao menos, diminuir o sórdido número de cinqüenta milhões de miseráveis que sobrevivem no país, ou qualquer outro movimento social.
Todavia, por mais estranho que pareça, este protesto não é formado nem por operários, nem por estudantes insatisfeitos, e muito menos por qualquer outro movimento social. Manipulados pela OAB, PSDB, DEMOCRATAS, e outras entidades que não devem, em matéria de conservadorismo, nada a grupos como TFP´s (Tradição, Família e Propriedade) e Opus Dei´s da vida, um punhado muito pomposo de homens de meia idade, senhoras, play boys, empresários e outros cidadãos de bem das classes A e B.
De uma hora para outra, imaginando estarem imbuídos de um sentimento patriótico, com a ilusão hilária de exercerem seu papel de sujeitos da história, posam de ridículos pelas ruas de cidade, gritando slogans como “Fora Lula”, “Chega de Corrupção” e o seu famoso lema que batiza o movimento: “Cansei.”
A cena não poderia ser mais curiosa: madames, empresários endinheirados e congêneres empolgados com um protesto vazio de conteúdo, justamente estes que sempre desprezaram qualquer mobilização popular, agora lançam mãos dos mesmos artifícios daqueles que nomeiam com a alcunha de vagabundos.
Mas a direita não sabe fazer protesto; os revoltosos, equipados com toda sorte de apetrechos para livrá-los das intempéries, como guarda sol, filtro solar e outros acessórios, além de contarem com a companhia de seus cachorrinhos de estimação que singelamente vão de carona no colo dos engajados donos, parecem mais com alguns personagens folclóricos de algum filme de comédia dos anos 80.
A revolta dessa gente contra Lula é de dar náuseas. Afirmam ingenuamente que o caos aéreo, a violência, e tudo o mais é culpa do governo atual. Para Mauro Santayana este infeliz protesto tem a ver com o preconceito das classes médias contra um presidente operário.
Entretanto essa atitude caricata explica-se pela noção totalmente apolítica e anti-histórica que estes elementos possuem do processo social brasileiro, estes espécimes curiosos da elite conservadora tupiniquim quase chegam ao cúmulo de dizer, por meio de pseudo-intelectuais, que o terrível acidente de TAM e da empresa Rico foram arquitetados pelo próprio presidente.
Se tivessem a mínima gota de honestidade, procurariam saber o óbvio: o caos dos aeroportos e o estado de guerra civil e a corrupção se devem a uma ausência de projeto social de longo prazo, cuja carência remonta a todos os governos anteriores, e não somente a era PT, como dizem os alienados anti-históricos do Cansei!.
Também pudera, para quem acredita na imparcialidade da grande mídia e terceiriza o ato de pensar a panfletos neofascistas como VEJA´s, Jornais Nacionais e similares, não poderia haver outra consequência senão a atrofia completa das faculdades de raciocínio lógico. O resultado é esse, prato cheio para manobras políticas de uma oposição desesperada para angariar algum proveito político da crise.
A elite (in)decente cospe no prato que comeu, Lula tem governado para elas desde o primeiro mandato. As exportações estão crescendo como nunca, a reforma agrária foi posta de lado, o agro-negócio tem recebido cada vez mais atenção do governo, capitalizado com quantidades enormes de capital financeiro gringo, para alegria dos latifundiários.
Mas o lastro do protesto vazio e anti-histórico vai seguir, com a classe média e a elite vomitando seus gritinhos hipócritas de “cansei disso, casei daquilo.” Este movimento, como revela o próprio nome, já nasceu cansado...
* Pesquisador do Núcleo de Cultura Política do Amazonas e graduando em ciências sociais pela Universidade Federal do Amazonas/Ufam. Contato: ncpamz@gmail.com
AVISO: O artigo publicado com assinatura é de responsabilidade exclusiva de seu autor.
- Postado por: Comissão Editorial às 09h02 AM
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21/8/07
CRISE DA ECONOMIA POLÍTICA

Imagem: www.emprestimosecreditos.blogs.sapo.pt
* Breno Rodrigo de Messias Leite
“Viva a crise”, assim o sociólogo francês Alain Touraine inicia seu artigo sobre o processo de transição e consolidação/construção da democracia política na América Latina; que, de acordo com o autor, foi ambientado em um processo histórico-estrutural de mudanças dos modelos autoritário-militarizados para os modelos de democracia liberal e participativa.
Até aí tudo bem! Nada de novo na observação. Ocorre que para Touraine, as transições de um modelo para o outro, assim como todo processo de transição mais ou menos substancial, está justificado no elemento crise: a crise como caminho da transformação da ordem, dos costumes, da cultura da submissão, bem como das estruturas econômicas, políticas, sociais, institucionais.
Em outras palavras: a crise de legitimidade que, para além das idiossincrasias, propicia a mudança da ordem autoritária (mãe da crise) para a democrática (herdeira da crise) – no caso da América Latina, bem como de outros países.
Ora, tomando como referência o foco de análise de Touraine, pode-se identificar hoje uma crise substancial na agenda econômica mundial. Embora o cenário de crise silenciosa no capitalismo – onde até a “insignificante” crise imobiliária provocada pelos caloteiros da classe média norte-americana afeta todo funcionamento “harmônico” do mercado financeiro internacional, estendendo-se pelos setores produtivos da economia, parece piada de português! – seja mais do que evidente, não se sabe, de fato, o que virá amanhã; não se sabe se a crise será catastrófica (p. ex., Grande Depressão de 1929) ou apenas um ponto de transição para outro patamar econômico mais humano e menos destrutivo.
A atual economia mundial, que tem na globalização financeira a sua “forma mais acabada” ou mesmo a etapa suprema na forma de imperialismo, basta observar as guerras econômicas contra os países árabes motivadas pela busca incessante de petróleo, já deu no que tinha que dar! Destruição, pilhagens, violência são resultados de séculos de ocupação das colônias da América, Ásia e África até os atuais países do Oriente Médio.
Na verdade, para ser mais claro, já conseguiu expandir suas fronteiras econômicas, podendo levar para cada rincão do planeta o modelo de reprodução ampliada do capital (mercadorias) e da forma de vida alicerçada no valor individualista/competitivo, presente na ética do self-made man “civilizado”.
Do oriente ao ocidente, portanto, a ordem dominante é a da reprodução ampliada do capital, na forma dominante da exploração da força de trabalho abstrato e automação da produção. Mas a situação, em termos históricos, não é tão cômoda assim.
Pelo contrário, a situação atual só tende a se agravar, pois a integração dos mercados mundiais é total, criando assim um elevado grau de interdependência que, no curto prazo, objetiva a “livre circulação das mercadorias”, mas no longo prazo, num ambiente de crise sistêmica radical, só pode prejudicar as economias mais vulneráveis e dependentes.
É interessante notar que a evolução econômica do capitalismo é instável e cercada de incertezas. A sua (in)capacidade de reinventar-se constantemente cria um ambiente de renovação e inovação que Schumpeter chama de “destruição criadora” e que Marx apelidava de “revolução das forças produtivas”. Tal percepção é aceita por capitalistas e não-capitalista. Trata-se de consenso e honestidade intelectual.
Então, portanto, o que faz o capitalismo ser o que realmente é? Do ponto de vista da lógica econômica – refiro-me à economia política crítica – pode-se afirmar que o elemento crise é a chave interpretativa da questão.
Sem as crises o capitalismo seria ipsis litteris incapaz de reinventar-se, de renovar-se radicalmente a cada momento. A crise é o carro chefe da mudança, da tomada de fôlego, da transformação dentro da ordem: tudo que o capitalismo mais quer. Nada melhor do que uma crise econômica para colocar ordem na casa.
E mais: os exemplos históricos desse tipo são fartos e podem ser encontrados até na porcaria do livro do marxista mecânico Leo Huberman, Historia da Riqueza do Homem, especialmente no capítulo, que por sinal é a pérola do livro, “O camponês rompe as amarras” (sic).
Resumindo e finalizando: a palavra de ordem do capitalismo, ao invés de ser “acumulai, acumulai, eis a lei dos profetas” dita pelos sábios judeus e repetida ad nauseam pelo neo-cristãos protestantes; deveria ser a do menos profeta e mais racional, Alain Touraine: “Viva a Crise”.
* É analista Político e Coordenador Geral de Pesquisa do Núcleo de Cultura Política do Amazonas - ncpam. Contato: ncpamz@gmail.com
AVISO: O artigo publicado com assinatura é de responsabilidade exclusiva de seu autor.
- Postado por: Comissão Editorial às 10h37 AM
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19/8/07
MIRANTE DO COTIDIANO

Foto: Inara Nascimento Tavares
Na próxima quinta-feira (23/08) às 19h, o SEBRAE Amazonas estará lançando no Centro Cultural dos Povos da Amazônia, em Manaus, o primeiro Catálogo Iconográfico produzido no Amazonas sob o foco do empreendedorismo cultural e da economia da cultura. Antecede o evento o curso de gestão cultural, nos dias 20 e 21, ministrado pela consultora convidada Rosa Villas-Boas, na sede do SEBRAE, com a participação dos artistas, agentes culturais comunitários, artesãos, formuladores de políticas públicas e produtores culturais do Estado.
A pesquisa de campo foi coordenada pelo professor e antropólogo Ademir Ramos, da UFAM/UNISOl, com apoio do Instituo Amazônia, FUCAPI/Rede Amazonas Design e outros colaboradores parceiros ou contratados, que por mais de 7 meses estiveram em campo trabalhando na consulta às comunidades e na conferência dos ícones, bem como no registro da legitimidade dessas representações culturais como instrumento de afirmação e reconhecimento da identidade regional/local.
Para o antropólogo Ademir Ramos, “a estrutura do catálogo manifesta-se em forma de unidade, que expressa variadas formas e valores por áreas culturais que se intercomunicam como braço de rio para constituição da cultura do Amazonas. Está unidade é representados por vários ícones, que reclamam a presença do boto, Teatro Amazonas, Encontro das águas, peixe bodó, jaraqui e outros, que afirmam a identidade do amazonense, não por si mesmos, mas pelo cenário em que se encontram vivificados pelos atores sociais organizados num determinado projeto coletivo”, afirma o pesquisador.
O trabalho é uma produção coletiva que se destina aos empreendedores culturais do Amazonas, despertando, segundo Ademir Ramos, novos processos de criação e valorização dos ícones, seja como um produto ou mesmo como insumo capaz de agregar valor na indústria criativa local para concorrer no mercado cultural consorciado às áreas afins, gerando trabalho, renda e tributos. A belíssima editoração do Catálogo tem assinatura da empresa Norte Editorial, sendo impresso pela Manausforms. Contato e outras informações: NCN/SEBRAE: 2121- 4960.
- Postado por: Comissão Editorial às 01h00 PM
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