29/9/07
MIRATIRA

Viva Che
Ernesto Guevara, o Che, apelido que os cubanos lhe deram, completa 40 anos de morto, no dia 9 (nove) de outubro, tornando-se uma legenda da história política e social da América Latina. Médico, guerrilheiro, teórico revolucionário e estadista, um personagem universal. A sua participação na Revolução Cubana de 1959 e nos anos que a seguiram legitimam o seu nome na história, identificado com o Movimento de Descolonização do Terceiro Mundo. Perseguido pela CIA, militares norte-americanos, e pelo exército boliviano, como combativo guerrilheiro da liberdade, Che foi assassinado na Bolívia, em 1967, covardemente, pelo sargento Mário Terán, enquanto ainda estava deitado no chão batido de uma escolinha rural. Morreu aos 39 anos e de imediato removeram seu corpo para Vallegrande, onde foi exposto sobre umas pias da lavanderia de um hospital. Lá, seus algozes, arrancam-lhe as mãos para conferir com suas digitais encontradas na Argentina. Antes, fotografaram-lhe de diversos ângulos, documentando o seu olhar fixo com aparente tranqüilidade. Mataram-no, mas suas idéias igualitárias continuam a palpitar nos corações e mentes dos explorados e dominados
Perversa Desigualdade Comprovada
A Síntese dos Indicadores Sociais 2007- Uma Análise das Condições de Vida da População Brasileira – divulgada recentemente pelo IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística comprova que, de 1996 a 2006, as taxas brutas de freqüência à escola no Brasil referente a alguns segmentos etários apresentaram crescimento significativo. No entanto, comprava-se também, que mais da metade dos estudantes que freqüentam o ensino superior na rede pública (54,3%) pertencem aos 20% mais ricos. A pesquisa do IBGE revela também que o rendimento das famílias tem grande influência no acesso e permanência das crianças e jovens na escola.
Desigualdade e Exclusão Social
Comprova-se também, que os rendimentos médios de pretos e pardos – categorias usadas pelo IBGE – apresentam-se sempre menores que os dos brancos. Mesmo quando são considerados os rendimentos-hora de acordo com grupos de anos de estudo, as diferenças permanecem, com o rendimento-hora dos brancos em média 40% mais elevado que o de pretos e pardos para uma mesma faixa de anos de estudo. A perversa desigualdade alastra-se em todas as grandes regiões brasileiras.
As mulheres Têm mais Escolaridade
Os indicadores do IBGE registram, que a escolaridade média das mulheres é de 7,4 anos para a população total e de 8,9 anos para as ocupadas, que trabalham. No Brasil rural, essas médias são baixas: 4,5 anos e 4,7 anos, respectivamente. São as áreas metropolitanas que apresentam as maiores médias de anos de estudo, mas é no Distrito Federal que a escolaridade média das mulheres ocupadas é a mais elevada (10,4 anos). Por outro lado, a menor média observada foi nas áreas rurais de Piauí e Alagoas (3,2 anos), ou seja, nessas áreas as mulheres que estão ocupadas podem ser consideradas analfabetas funcionais e inseridas em trabalhos precários. Em 1996, entre as pessoas que freqüentam estabelecimentos de ensino superior, 55,3% são mulheres, passando para 57,5%, em 2006. Nota-se que os homens estão perdendo espaço no processo de escolarização, pelo menos, no que tange a taxa de escolarização superior.
Morte, Suicídio e Constelação
O filósofo André Gorz, um dos fundadores do Le Nouvel Observateur, e a sua mulher Dorine suicidaram—se em casa, na segunda-feira (24/9) em Vosnon, nordeste da França. Ele tinha 84 anos e ela 83. É uma história de amor tal como o filósofo narrou em sua última obra, a Lettres à D. - Histoire d"un amour (Cartas a D. - História de um amor) publicada em Setembro de 2006, pela Editions Galilée. Aos 84 anos, André Gorz escolheu partir com Dorine, 83 anos, a sua mulher. "Nenhum de nós gostaria de sobreviver à morte do outro. Dissemo-nos que se, mesmo impossível, tivéssemos uma segunda vida, gostaríamos de a passar juntos". Obra e vida se confunde no grande final. André Gorz teve várias identidades. Nascido em Viena em Fevereiro de 1923, de pai judeu e mãe católica, com o nome de Gérard Horst, exila-se em Lausana no momento da Anschluss - anexação da Áustria pela Alemanha nazista, em 1938. Mas, é na Suíça, onde estuda química, que conheceu Jean-Paul Sartre, que aí tinha ido fazer uma conferência, em 1946. Para o português, segundo a Base Nacional de Dados Bibliográficos, foram apenas traduzidos as seguintes obras: Divisão Social do Trabalho e Modo de Produção Capitalista, com seleção e apresentação de André Gorz; O Socialismo Fifícil, e Reforma e Revolução. Assim, deslocam-se para os céus o briho do filósofo constelado por sua eterna amante.
- Postado por: Comissão Editorial às 04h13 PM
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27/9/07
PODER E UTOPIA

Imagem:www.dotecome.blogspot.com
* Iraildes Caldas Torres
"No cotidiano, não percebemos o tempo político, no entanto, vivemos no tempo da gravidade e da disjunção. A disjunção está sempre presente, mesmo na hamonia. Estamos sempre envolvidos com o poder."
A modernidade engendrou a idéia de liberdade, mas não há indicações de que homens e mulheres se tornaram livres. A organização política dos segmentos marginalizados sob os auspícios da cidadania das chamadas minorias sociais não conseguiu dirimir os óbices das diferenças étnicas, raciais e de gênero.
Ou seja, não baniu o preconceito contra o outro diferente, em suas culturas, orientação sexual, geracional e de classe. Ao contrário, a modernidade desencadeou tensões e paradoxos de alcance incomensurável, haja vista que produziu eventos abomináveis como o nazismo.
De acordo com a interpretação frankfurtiana, especialmente Adorno e Horkheimer, o nazismo não é uma questão do caráter alemão ou o traço de uma personalidade autoritária como sempre se acreditou em relação à pessoa de Hitler. O que ocorreu é que a ordem hegemônica se encarregou de disseminar a alemanização do nazismo.
Para os Frankfurtianos, o nazismo está nas entranhas da própria modernidade de forma latente, a sua pátria é o capitalismo que produz personalidades autoritárias. No cotidiano, não percebemos o tempo político, no entanto, vivemos no tempo da gravidade e da disjunção. A disjunção está sempre presente mesmo na harmonia.
Estamos sempre envolvidos com relações de poder. Indivíduo e poder se aproximam ou se imiscuem. Não é o homem ou a mulher que é desejoso(a) do poder e sim o poder que é desejoso do homem. Mas nem boca, nem coração poderão compreender o poder. Ele foge da nossa compreensão.
O poder precisa dos homens, por isso uma sociedade nunca é destruída totalmente, assim como inexiste o poder que corrompe e aniquila totalmente. Por outro lado, todo trono de governante é manchado ele sangue. Esta é uma característica do sumo poder.
O poder está no limite ou no fio da navalhada das possibilidades daqueles que o exerce, por isso inspira sempre esperança. Poder e homem é difícil de serem combinados, mas os são. Do contrário vira tirania, Émile Cioran, cientista político do nosso tempo, morto em 1995, nos ensina que o paradoxo entre liberdade e servidão é algo difícil de resolver.
A utopia, ao mesmo tempo em que é necessário, é uma ilusão.É um desejo que não se realiza porque se vier a se realizar nos causa desencanto. A política deve ser olhada com desconfiança, afirma Cioran, mas também ela representa a última prova de humanidade. Para ele, o poder é uma armadilha com aspectos de destruição e de redenção.
Não se pode escapar do poder porque é algo que se impõe ao homem de forma inexorável, tanto faz ser o poder tirânico ou o democrático. Existe sempre um desejo secreto que os homens políticos buscam: a tirania. Os autoritários se orgulham desse poder tirânico e o expõe em praça pública como fez Hitler.
Os democratas se envergonham desse tipo de poder que execra em praça pública, a sua tirania é “sutil”, hipócrita e cheia de podridão. Riem e homem contigo, diz Cioran, e depois tiram o teu fígado matando-te sob um atroz sarcasmo. Política e crime jamais se separam. Tudo depende do momento, do porque e da forma que se mata.
É por isso que a democracia é perigosa, porque ela se constitui numa escola para tiranos. O mundo possui absolutos e o fato de existirem os absolutos é que se criam as utopias. A maior ameaça que existe nas sociedades é a utopia e, paradoxalmente, as sociedades não podem viver sem elas. A história é o reino do controlável e do incontrolável, é a ironia em marcha. A história é o lugar de violência e de eternas submissões.
* é professora da Universidade Federal do Amazonas- Ufam e doutora em Ciência Sociais/Antropologia. Contato: ncpamz@gmail.com
AVISO: O artigo publicado com assinatura é de responsabilidade exclusiva de seu autor.
- Postado por: Comissão Editorial às 06h34 PM
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25/9/07
A PERGUNTA É...
QUAL SERÁ FUTURO DOS POVOS INDÍGENAS?

Foto: www.mae-natureza.weblogger.terra.com.br
Sob essa questão procuramos ouvir lideranças indígenas jovens que estão em Manaus, estudando no Centro Amazônico de Formação Indígena (CAFI) com o apoio da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB). Os jovens indígenas foram indicados por suas organizações para participarem do Curso de Gestão Etnoambiental com foco na concepção e elaboração de projetos de Manejo Sustentável em seus próprios territórios. A faixa etária dessas lideranças oscila entre 18 a 25 anos. A pergunta foi respondida por escrito pelas próprias lideranças no contexto das aulas de Noções de Antropologia, que vêm sendo ministradas pelo professor Ademir Ramos, presidente do NCPAM. O Curso de Gestão iniciou no dia 13 de agosto devendo prolongar-se até outubro próximo. Em seguida, passamos as respostas das lideranças indígenas da Amazônia brasileira:
“A sociedade indígena enfrentou relevantes problemas quanto ao direito de demarcação e homologação de suas terras. Assim como, educação, saúde e outros direitos. Atualmente, continuamos nessa luta porque os poderes políticos nem sequer garantem o direito à saúde indígena, educação, demarcação das terras e a sustentabilidade dos nossos povos. Que seja discutido em fóruns, conferência a qualificação da educação diferenciada, saúde, demarcação das terras e que os povos tenham representantes indígenas nos parlamentados e não só aliados. Que seja também implantada a Universidade diferenciada, apropriada para a formação indígena nas áreas de saúde, direito, e outras ciências. Que o governo cumpra seu dever em retirar os invasores das terras homologadas e demarcadas e que homologue as que faltam. Que o governo libere verba para implantação de hospital em cada estado, que atenda todos os povos e que seus trabalhadores sejam indígenas”.
Marcelia Tobias Macuxi Terra Indígena Raposa Serra do Sol Comunidade Camará-Baixo Cotingo Normandia-Boa Vista/RR.
“O meu povo Galíbi-Marworno tem uma grande carência na área de educação. Devido à entrada dos brancos nas aldeias, vem se perdendo os costumes e a tradição. Estamos perdendo nossa cultura, como a língua materna; pois são poucos que ainda falam. Apesar das diferenças culturais e regionais, nós indígenas temos um problema em comum, que são as terras ameaçadas por invasores ou por grandes projetos governamentais ou particulares. E para melhorar precisamos de investimento na educação indígena. Pois somente a educação nos dá força para exigir nossos direitos, como a demarcação das terras e o fortalecendo de nossas comunidades”.
Naiara Fontineli Galíbi-Marworno Estado do Amapá
“Na minha aldeia Xerente, Reserva Indígena com cinco mil habitantes. Buscamos mais o desenvolvimento junto à comunidade para melhorar ainda mais a sustentabilidade indígena. A Reserva fica localizada a 75 km da Capital de Tocantins, Palmas. A área indígena que governo demarcou com cinco mil e cento oitenta e sete hectares, depois de séculos de luta. Quando se fala em futuro dos povos indígenas faz a gente pensar sobre novas conquistas, enfrentando novos desafios como liderança para construir uma alternativa de luta com os indigenistas e aliados, vindo caminhar pela liberdade, afirmando nossos conhecimentos e discutindo os direitos dos povos indígenas na busca da união Brasil”.
Sapdo Pereira Brito Estado do Tocantins
“Na minha aldeia, o povo Ticuna já vinha sofrendo há muitos anos na parte da educação e na saúde indígena, porque a educação não é aplicada conforme a educação diferenciada, gostaria que o governo investisse mais na educação indígena, preparando e qualificando os jovens Ticuna para o futuro, porque são eles que sabem da realidade e necessidade da aldeia, respeitando as culturas e preservando a identidade como povo indígena. Na saúde indígena para melhorar nossa qualidade de vida teria que ter uma forma de organização própria que cuidasse da saúde, com sede própria na aldeia, que tomasse a frente com as outras organizações procurando garantir a saúde dos nossos povos, fazendo convenio com outras entidades governamentais, respeitando os conhecimentos tradicionais dos povos indígenas. O movimento indígena teria que se unir politicamente para fortalecer muito mais a nossa luta para garantir a demarcação definitiva das terras indígenas”.
Wellton Ticuna Benjamin Constant Amazonas
“Quando se fala no futuro dos povos indígenas, logo vem em mente inúmeros problemas que devem ser superados para que as gerações futuras não percam a identidade, mantendo assim viva a história dos povos indígenas. São várias as reivindicações dos povos indígenas , temos nos dias atuais exemplos vivos como a demarcação e garantia das terras indígenas, educação diferenciada , saúde de qualidade, respeitando e valorizando os conhecimentos tradicionais , discussão e aprovação do Novo Estatuto da Cidadania Indígena . São problemas de longas datas , que resultaram na morte de grandes lideranças e que poderá ser vencidos somente com a coragem , união e articulação de lideranças com as várias organizações indígenas e com o apoio dos parceiros que lutam em prol dos indígenas. Quando os donos das “leis” e os governantes realmente olharem com bons olhos a questão dos indígenas e não se preocuparem apenas com no beneficio próprio, aí quem sabe podemos ter grandes conquistas, do contrario serão outros 500 anos de luta, dor e resistência”.
Orowao Paradran Canoe Urumbone Estado de Rondônia
- Postado por: Comissão Editorial às 05h26 PM
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23/9/07
MIRANTE DO COTIDIANO

Foto: Otoni Mesquita
Amazônia saqueada
O governo Lula (PT) deliberadamente resolveu efetivar a política do PSDB de privatização da Floresta Amazônica. Na semana que passou (21/9), a ministra petista Marina Silva anunciou que o Programa de Aceleração contra a depredação do patrimônio público começa por Rondônia.
O contrato de risco referente ao aluguel das florestas para exploração madeireira inicia-se por uma área de 90 mil hectares da Floresta Nacional do Jamari. A expectativa da ministra é celebrar o primeiro contrato de exploração, saque e rapinagem até março do próximo ano.
No Amazonas, o governador Eduardo Braga (PMDB) sentiu-se traído porque, segundo os técnicos da Secretária de Desenvolvimento Sustentável, o Estado é o menos devastado da região e portanto, esperava que a privatização começasse por aqui. No entanto, de acordo com o Ministério do Meio Ambiente, a decisão de iniciar o Programa de Aceleração de aluguel da floresta por Rondônia é para barrar a devastação.
A lógica do governo federal fundamenta-se na legalização como instrumento de controle. Pois, a expectativa, segundo Brasília, é que, ao trazer as empresas para explorar a madeira, o governo possa inibir o corte ilegal.
O fato é que, com essa decisão o governo Lula alinha-se com o grande capital que há muito, vem se articulando para explorar nossa riqueza, que não se reduz somente ao conhecimento madeireiro, mas sobretudo, a nossa biodiversidade, ameaçando a autodeterminação da Nação brasileira.
A ministra Marina Silva não conseguiu sequer mudar os marcos legal quanto à cooperação de pesquisa internacional imagine se vai conseguir fiscalizar as áreas exploradas no interior da Amazônia. A política do governo Lula para Amazônia tem sido a mesma implementada pela Ditadura militar.
Veja a Transamazônica, a exploração mineral, a construção das hidrelétricas e outros mega projetos de retorno imediato em favor do capital transnacional.
Na Inglaterra, mais de vinte mil pessoas fizeram doações na primeira semana de campanha da “organização não governamental” Cool Earth, que promete proteger e comprar terras na Amazônia. A iniciativa foi lançada no dia 5 de junho passado, com apoio de várias personalidades e entidades ambientalistas britânicas.
O projeto propõe que os doadores patrocinem, por 35 libras (cerca de R$ 140), meio acre de terra – o equivalente 2 mil metros quadrados de mata -, embora seja possível fazer doações menores.
De acordo Mathew Owen, diretor da ONG, o dinheiro arrecadado tem dois destinos. O primeiro é investir na preservação de florestas que já estão protegidas ou que já são de propriedade da entidade ou de parceiros. Um segundo destino da receita é a compra de terras.
- Postado por: Comissão Editorial às 01h09 PM
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