13/10/07
MIRATIRA
SOCIOLOGIA NAS ESCOLAS
 A Secretaria de Estado da Educação e Qualidade de Ensino do Amazonas (SEDUC), através do Conselho Estadual de Educação, regulamentou a obrigatoriedade da Filosofia e Sociologia no ensino médio, assim como na Educação de Jovens e Adultos. A resolução nº 89/2007, datada de 30 de julho e só agora publicada pelo Diário Oficial do Estado, com data de 08 de outubro, obriga da mesma forma, a inclusão do ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Educação Ambiental no sistema de ensino do Estado.
A obrigatoriedade passa a valer a partir do próximo ano para as escolas públicas e privadas. Assim sendo, a resolução prescreve que: “para iniciar o ano letivo de 2008, as instituições educacionais deverão estar com suas estruturas curriculares devidamente atualizadas, nos termos da presente Resolução”.
O NCPAM e o Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas de imediato solicitou audiência com o Secretário de Educação, professor Gedeão Timóteo Amorim para firmar entendimento quanto à formação continuada dos professores da área de Ciências Sociais e de Cultura Afro-brasileira nos termos da Lei, contribuindo diretamente para a elaboração dos projetos políticos pedagógicos das escolas fundamentados no desenvolvimento das competências e na formação cidadã da comunidade escolar.
TEIA DE CULTURA E CIDADANIA
 O Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente, responsável pelo projeto Ponto de Cultura “Pé na Taba”, conveniado com o Ministério da Cultura (MinC), tomou a iniciativa de articular o primeiro encontro para refletir sobre a cultura ponto a ponto - um direito de todos. O objetivo do encontro, segundo seus organizadores foi “provocar o debate para colocar na agenda das políticas públicas do Estado a importância do Programa Cultura Viva, por meio da sensibilização do poder público e da sociedade civil, desmistificando a tese de que no Amazonas não se faz cultura”.
O evento ocorreu na quinta-feira (11/10), das 9 às 14h, no auditório da Fundação Vila Olímpica, em Manaus, contando com a participação de artistas, educadores, pesquisadores, produtores culturais, empreendedores e formuladores de políticas públicas. A abertura do encontro contou com a participação do representante regional do MinC sediado em Belém do Pará, Alberdan da Silva Batista, que conferiu palestra sobre “A concepção do Programa Educação, Cultura e Cidadania – Cultura Viva e a importância dos Pontos de Cultura na realidade amazônica.". Entre os debatedores na mesa estava o representante do NCPAM, professor Ademir Ramos, que defendeu a metodologia da transversalidade operada nas políticas de cultura do MinC e rechaçou uma vez por toda com a prática do dirigismo cultural, que segrega a cultura popular e reduz o artista e os produtores culturais “em lambaio do governo”.
“NA RABEIRA DA CULTURA”
 O Amazonas, como bem disse o representante regional do MinC, Alberdan Batista, “está na rabeira da cultura”, porque é o Estado que apresenta o menor número de projetos para captação de recurso junto ao Ministério da Cultura. Do mesmo modo, explicou também, que cada ponto de cultura, em sendo aprovado o projeto, pode receber do Governo Federal até R$ 185 mil, enquanto o pontão de cultura (consórcio de projetos) pode receber ate R$ 500 mil, de forma parcelada, sem intermediação do Governo do Estado. No entanto, o Amazonas só têm 03 (três) pontos de cultura, os quais irão participar da II mostra do Teia, que será de 07 a 11 de novembro, em Belo Horizonte. Mas, para motivar os artistas e produtores culturais do Estado ficou aprovado a realização de uma reunião prévia, no dia 22/10 (segunda-feira), às 14h30, na sede do SEBRAE Amazonas, à rua Leonardo Malcher, 924, no centro de Manaus, para se discutir e definir propostas que serão defendidas nas plenárias dos debates em Belo Horizonte. Todos os participantes se comprometeram em ampliar o convite aos principais interessados, que são os artistas, produtores, empreendedores culturais e representações do Estado e Municípios.
A LAMBANÇA DE RENAN
 Depois de submeter o Senado Federal à desmoralização pública comprometendo os interesses do governo Lula, Renan Calheiros, foi pressionado pelos próprios cardeais do PMDB a licenciar-se por 45 dias. A oposição garante que as investigações das denúncias contra o senador podem não ser postas de lado e que os processos terão continuidade. A licença foi pouca. “O que realmente traria calma definitiva a casa seria a renúncia, mas já é um passo a sua licença”, comentou o presidente do PSDB, senador Tasso Jereissati (PSDB-CE). A última lambança do senador Renan Calheiros veio à tona no fim da semana passada. Assessores do então presidente do Senado foram acusados de tramar espionagem contra os senadores de oposição. Renan negou as acusações e afastou um dos assessores, mas a faísca virou o foco e os senadores, inclusive os petistas, não mais agiram como bombeiros e passaram a exigir do PMDB o afastamento imediato de Renan Calheiros, da Presidência do Senador Federal, o que se consumou às 19h de quinta-feira (11/10) em um pronunciamento exibido pela TV. O vice-presidente da casa, o senador petista Tião Viana, já é o presidente em exercício, consolidando, dessa feita, a hegemonia do PT de LULA.
CRIANÇA FELIZ
 Quisera que fosse verdade. Mas, a estrutura social brasileira fundada na perversa desigualdade tem se beneficiado do trabalho infanto-juvenil. OS índices denunciam que aproximadamente 50 mil crianças continuam trabalhando no Amazonas. Os dados foram repassados pela presidente do Fórum Estadual de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil e Proteção ao Trabalhador Adolescente, professora Creuza Barbosa. Quanto aos números apresentados, a presidente do Fórum, simplesmente, espera “que cada um faça sua parte. Que tenhamos escolas públicas de qualidade desde o ensino infantil e políticas públicas que funcionem. A família também precisa se conscientizar, que a criança não pode sustentar a família, esse é o papel do adulto”. Esse Fórum parece mais um oratório religioso do que um espaço de discussão, onde deveria se exigir dos governantes políticas públicas de responsabilidade para erradicar esse crime social.
- Postado por: Comissão Editorial às 08h08 AM
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11/10/07
ESPECIAL RENATO RUSSO

Foto: www.deluca.blogspot.com
* João Fábio Braga
Exatamente há 11 anos deste dia 11 de outubro, uma dos maiores poetas da música popular brasileira e líder de uma das maiores bandas de rock do país - Legião Urbana, Renato Russo silenciaria sua voz para sempre, marcando profundamente os corações e mentes de uma geração, assim como ele acreditaram naquele momento nas possíveis mudanças sociais e políticas do Brasil.
Entre o lirismo e a rebeldia, o tédio e a capital Brasília – são expressões que inspiraram um grupo de adolescentes de classe média na cidade principal do cenário político nacional, conhecido como a turma da colina. No entanto, Renato Manfredini Jr. era o mais irreverente de todos e detinha de um arcabouço cultural e musical invejável entre a turma. O pano de fundo desta turma estava ancorado num movimento musical original e anárquico, o Punk, na qual pregava a radicalidade ao extremo contra os falsos modismos e uma dose crua de protesto político. Em 1977, essa foi a fúria fórmula encontrada pela primeira banda de punk da capital, liderada pelo rebelde Renato, o Aborto Elétrico.
Mas depois de 4 anos, a banda Aborto Elétrico se desfez, tal ruptura nasceram as Bandas Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude. Dali em diante, Renato Manfredini Jr. transformara-se em Renato Russo, sobrenome artístico adotado devido aos seus filósofos favoritos, o francês Jean-jacques Rousseau (1712 – 1778), o inglês Bertrand Russell (1872 – 1970) e outra fonte de admiração o pintor francês primitivista Henri Rousseau (1844 – 1910). Para além do voraz leitor que era, era também um aguçado devorador de música, herdara daí à influência que compunha sua personalidade uma mistura de Baudelaire com Sid Vicious (integrante da banda inglesa Sex Pistols, pioneira da cultura punk, na década de 70).

Em 1985, sai o primeiro álbum com o nome da banda Legião urbana com um tom pintado de punk e carregado de protesto, começara a partir desta obra a preocupação do compositor sobre a juventude em que fazia parte, momentos de redemocratização que representavam a esperança e luz de tempos melhores, longe da escuridão de 20 anos de ditadura, pois para Renato Russo soara desconfiança sobre o futuro que se delineava a partir dali, como bem citou e cantou na música de abertura do álbum -“será só imaginação? (...) será que vamos conseguir vencer? (...) ou será que vamos ter que responder pelos erros a mais”; assim como Petróleo do Futuro que aborda o descaso das autoridades com a juventude do país, bem expressa na música Reggae que expõe a falência do sistema educacional, deste modo Perdidos no espaço exibe também a confusão do mundo das drogas e Baader-meinhof blues mostra a violência transmitida pela mídia.

Em 1986, é lançado o álbum Dois que para muitos a melhor obra musical do grupo e de um amadurecimento estético, lírico e introspectivo distinto do primeiro de ardência punk. Esta obra mostra um Renato Russo mais sofisticado tanto no aprimoramento sonoro quanto no lirismo que soa de maneira universal mais recluso numa esfera privada, primando pelas dúvidas do conflito existencial da juventude no cotidiano sobre sexualidade, amor, paixão, futuro e ao mesmo tempo, buscando respostas na solidão, num processo involuntário da crise pós-moderna e perante as incertezas da democracia e a globalização que se enunciava no país.
Numa das faixas deste álbum, Renato Russo apresenta Tempo Perdido como uma canção que expressa o desejo de mudanças profundas, mas, porém, revela o despreparo e insegurança para o novo período da história – o esgotamento do socialismo real e o processo em andamento da abertura econômica ao neoliberalismo no país, como bem colocou nesses versos: “Todos os dias quando acordo/ Não tenho mais o tempo que passou/ Mas tenho muito tempo/ Temos todo o tempo do mundo. (...) Não temos tempo a perder/ Veja o sol dessa manhã tão cinza/ A tempestade que chega é da cor dos teus olhos castanhos (...) Não tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acesas agora/ O que foi escondido é o que se escondeu/ E o que foi prometido, ninguém prometeu." - mas o autor tem um certo otimismo na certeza de dá atenção a juventude como agente para as verdadeiras transformações sociais, bem esperadas hoje em dia, citada no último verso’ - “Nem foi tempo perdido/ somos tão jovens”.
No entanto, Renato Russo numa das músicas se manifesta declaradamente simpatizante do Partido dos Trabalhadores quando na letra Fábrica faz uma crítica aos detentores do capital e a desigualdade social, como também expressa utopicamente uma sociedade mais justa sem exploração do homem pelo homem: “Nosso dia vai chegar/ Teremos nossa vez/ Não é pedir demais: quero justiça/ Quero trabalhar em paz/ Não é muito o que eu lhe peço/ Eu quero trabalho honesto/ Em vez de escravidão / Deve haver algum lugar/ Onde o mais forte não consegue escravizar/ Quem não tem chance/ De onde vem a indiferença?/ Temperada a ferro e fogo/ Quem guarda os portões da fábrica?”
Numa outra estrofe, Renato revela sua inquietação as conseqüências surgidas desde a revolução industrial, como propulsora da ideologia capitalista de intervenção e manipulação da natureza, sendo isto ter causado mal a humanidade, na qual ele expõe um pessimismo messiânico e caótico ao conformismo que não se resta mais nada a fazer: “O céu já foi azul, mas agora é cinza/ E o que era verde aqui já não existe mais. / Quem me dera acreditar/ Que não acontece nada de tanto brincar com fogo/ Que venha o fogo então/ Este ar deixou minha vista cansada, / Nada demais.”

Em 1987, sai o álbum Que país é este, uma ontologia de músicas do Aborto Elétrico e Trovador solitário da época de adolescente em Brasília. Mas esta obra continha elementos críticos que alfinetavam diretamente os políticos e especialmente o congresso nacional, ainda que nas ruas o coro gritante por eleições diretas era cada vez mais vibrante. A canção Que país é este? se tornou o hino de protesto dos jovens para criticar principalmente o presidente Sarney e a corrupção na esfera pública: “Nas favelas, no senado/ Sujeira prá todo lado/ Ninguém respeita a constituição/ Mas todos acreditam no futuro da nação (...) Mas o Brasil vai ficar rico/ Vamos faturar um milhão/ Quando vendermos todas as almas dos nossos índios num leilão”.
E n’outro verso de outra música Renato Russo dizia sobre a calamidade pública da saúde e o descaso nacional com seus cidadãos: “e agora você quer um retrato do país?/ Mas queimaram o filme/ E enquanto isto na enfermaria/ Todos os doentes estão cantando sucessos populares (e todos os índios foram mortos)”.
Contudo, naquela altura Renato Russo tinha consciência que se tornara o porta-voz da juventude, algo que o incomodava, pois sabia da responsabilidade social do artista, realmente não sabia como lhe dá com isto. Até que no dia 18 de junho num sábado de 1988, o que era para ser a volta triunfal da Legião Urbana a cidade de Brasília, se tornou o pesadelo entre a multidão presente, - a confusão se alastrou no estádio Mané Garrincha, onde 385 pessoas foram atendidas no serviço médico, 60 pessoas detidas pela PM, 64 ônibus depredados e 10 milhões de cruzados de prejuízos ao estádio.
Esse é sem dúvida, um dos eventos que marcou profundamente a sua carreira a ponto de influenciar musicalmente. Outro momento marcante para Renato Russo, foi o nascimento do seu filho e no mesmo ano de 1989, descobrira que era portador do HIV. Ano também de muitas esperanças, a eleição para presidente.

Por tudo isso, é lançado em 1989 As quatro estações – uma obra que marca o início da nova fase da banda e um nova estação para o cantor que segundo ele afirmou estaria cansado de criar músicas para salvar o mundo e queria cantar músicas de amor, com temas mais espirituais e menos materiais: “tudo é dor/ e toda dor vem do desejo de não sentirmos dor (Buda); Meu amor/ disciplina é liberdade/ compaixão é fortaleza/ ter bondade é ter coragem (Tao-te-king); Ainda que eu falasse a língua do homens/ e falasse a língua do anjos/ sem amor eu nada seria (São Paulo aos coríntios); O amor é fogo que arde sem se ver/ é ferida que dói e não se sente/ é um contentamento descontente/ é dor que desatina sem doer (Luís de Camões); Cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo/ tende piedade de nós/ daí-nos a paz (Jesus Cristo)”.
Neste álbum, assim como nos outros anteriores mostra ainda a preocupação de Renato Russo com a juventude, mas de modo diferencial porque agora ele era pai. Tal reflexão do iria escrever e o próprio tratamento contra a dependência do álcool pesava em sua consciência sobre o que poderia pensar seu filho quando tivesse maior, pois queria dá-lhe o melhor de si. Com isso, percebia com otimismo, chegando alegar em letra: “o Brasil é o país do futuro” ou mesmo cantava na música Pais&filhos – “você culpa seus pais por tudo/ e isso é absurdo/ são crianças como você/ O que você vai ser, quando você crescer?”
As obras musicais da Legião Urbana não param por aqui, elas são extremamente vastas, impossível abordá-las neste espaço virtual. A poesia de Renato Russo se eternizou como bem imaterial da cultura brasileira, assim como ele, símbolo de uma geração de muitas perspectivas, anseios e afinidades com as transformações socioeconômicas e políticas, nas quais as letras não perderam os seus sentidos propriamente ditos e compreendidos no contexto atual. Portanto, fica a homenagem e o sentimento da falta deste ilustre brasileiro, assim como João de santo cristo que foi para Brasília com a finalidade de “falar com o presidente prá ajudar toda essa gente que só faz sofrer...”
Força Sempre!
* Editor Geral do Núcleo de Cultura Política do Amazonas e finalista do curso de Ciências Sociais pela Universidade Federal do Amazonas. contato: ncpamz@gmail.com
AVISO: O artigo publicado com assinatura é de responsabilidade exclusiva de seu autor.
- Postado por: Comissão Editorial às 01h29 AM
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9/10/07
PONTENCIALIDADE DA JUVENTUDE

Imagem: www.vermelho.org.br
*Ademir Ramos
Há anos, em 2000, o Núcleo de Opinião Pública (NOP) da Fundação Perseu Abramo (FPA), dando continuidade ao projeto de investigação do imaginário social brasileiro, promoveu uma pesquisa quantitativa entre jovens de 15 a 24 anos, residentes nas 9 regiões metropolitanas do país e Distrito Federal. Embora, a pesquisa em foco não contemple diretamente o universo da juventude na Amazônia, mesmo assim, pode nos ajudar como baliza para compreender a complexidade da sociabilidade da juventude em nossa região.
O propósito não é analisar tecnicamente os instrumentos metodológicos aplicados em referência à especificidade da realidade em si, mas subsidiar, como bem definiu os sociólogos coordenadores da pesquisa da FPA, Gustavo Venturi e Helena Abramo, quanto ao entendimento do que tem sido a vivência da condição da juventude no Brasil de hoje, suas questões, dificuldades e potencialidades, posturas e posicionamentos, a partir do relato de suas opiniões, investigando seus interesses, preocupações e seus projetos, a partir da sociedade em que estão inseridas.
A pesquisa, segundo os coordenadores, trata-se “de tentar enxergá-los em sua singularidade histórica e geracional – não em comparação a um modelo pré-estabelecido em outros contextos –, de forma a podermos avançar não só no conhecimento de sua condição, como também, ao ouvi-los e enfocarmos a realidade a partir de seu olhar, de enriquecermos nossa compreensão sobre o momento que a sociedade brasileira atravessa”.
O escopo apresentado bem que poderia referenciar uma pesquisa local para que, realmente, viesse embasar a formulação de políticas públicas governamentais responsáveis, rechaçando uma vez por toda, o “achismo”, o oportunismo eleitoral e a malversação do recurso público feito em nome da juventude.
Os dados confirmam que a condição da juventude enquanto estudante é válida para pouco mais da metade dos jovens (58%). No entanto, simultaneamente, o vínculo com o trabalho, envolve a grande maioria (78%). A pesquisa aponta ainda que a dificuldade enfrentada pelos jovens está em compatibilizar as condições da escola com o trabalho.
Entre os 42% que já pararam de estudar, apenas 1% o fez por ter chegado à formação completa, de 3º grau (2% interromperam o curso superior e 6% estão cursando) e somente 30% concluíram o ensino médio (18% o abandonaram). Formação esta que, dada a proporção da faixa etária com 18 anos ou mais, deveria ter sido atingida por 69%.
Dados sobre os motivos do abandono dos estudos, as duas principais razões citadas são econômicas: “comecei/ precisei trabalhar/ fiquei sem tempo para estudar”, mencionada espontaneamente por 34% (por 47% dos rapazes e 23% das moças), e “falta de condições financeiras para pagar os estudos” (16%). O terceiro motivo é “gravidez/ casamento”, citado por 13% (23% das jovens que pararam de estudar, 1% dos jovens); 10% alegam desinteresse pela escola, 8% declaram-se satisfeitos com o grau concluído e 5% desistiram depois de barrados no vestibular (as demais razões são dispersas).
Pergunta-se também, em resposta espontânea e múltipla: “quais os assuntos que mais lhe interessam atualmente?”. Nesses índices a política aparece em 7º lugar, citada por 11%, assim como saúde (10%), economia (9%) e segurança/violência (9%). Bem abaixo, portanto, de temas ligados a emprego (37%), educação (30%), cultura e lazer (27%), família (25%), relacionamentos/amizades (22%) e esportes (20% - este o 2º de maior interesse dos rapazes, citado por 34%, mas o 11º de interesse das jovens, citado por apenas 7%).
O relevante é que há um expressivo contingente de jovens que conhecem e acompanham as atividades de outros jovens e/ou se auto-organizam em grupos ligados a atividades culturais e de lazer: “grupo cultural jovem no seu bairro ou comunidade” 56% dos jovens metropolitanos, sobretudo grupos de música (33%), mas também de dança (15%), patins ou skate (13%), de teatro (12%), de ciclistas (11%), pichadores (11%), grafiteiros (9%) e de rádios comunitárias (5%), entre outros menos freqüentes.
Por fim, cabe dizer que, se os jovens se mantêm distantes das formas tradicionais da política, a grande maioria acha que pode mudar o mundo (mudar muito, 54%; mudar um pouco, 30%). E a mudança que os jovens fariam no mundo é a erradicação de seus problemas mais pungentes, a violência, o desemprego, a fome, as injustiças sociais, as drogas, a pobreza e a miséria. Podemos então dizer que as energias utópicas não estão esgotadas, que os jovens têm o desejo de um mundo melhor e apostam em sua capacidade de transformação.
A pesquisa é densa, condensamos apenas alguns índices para dar visibilidade à “questão da juventude” e ao mesmo tempo promover o chamamento dos intelectuais e dos políticos responsáveis à importância de se formular e implementar políticas que respondam em tempo às demandas da juventude brasileira e, em particular do Amazonas, investindo em sua potencialidade numa perspectiva humana e sustentável.
*Antropólogo, Professor da Universidade Federal do Amazonas-UFAM e Presidente do NCPAM. Contato: ncpamz@gmail.com
AVISO: O artigo publicado com assinatura é de responsabilidade exclusiva de seu autor.
- Postado por: Comissão Editorial às 06h56 AM
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7/10/07
MIRANTE DO COTIDIANO

Fotografia: Márcio Cabral - http://www.pbase.com/marciocabral
Crianças Kalungas no norte de Goiás
Quilombo não pertence somente ao passado escravista brasileiro e tampouco se configura como comunidade isolada, no tempo e no espaço, sem qualquer participação em nossa estrutura social. "Ao contrário, as mais de mil comunidades quilombolas espalhadas pelo território brasileiro mantêm-se vivas e atuantes, lutando pelo direito de propriedade de suas terras, consagrado pela Constituição Federal de 1988", que nos informa é Lúcia Andrade, coordenadora executiva da Comissão Pró-Índio de São Paulo (CPI-SP), que desde 1989 atua junto às comunidades quilombolas do Pará.
A primeira titulação de uma terra de quilombo no Brasil aconteceu na Amazônia, no Estado do Pará, no município de Oriximiná, em 1995. Neste Estado, existem mais de 200 comunidades negras descendentes de quilombos. Os homens e as mulheres quilombolas do Pará foram pioneiros na luta para fazer valer o direito reconhecido no texto Constitucional.
Atualmente, o Pará é o Estado com maior titulação de terras de quilombo. São 77 comunidades (cerca de 3.600 famílias), com suas terras asseguradas por títulos outorgados pelos governos estadual e federal. As terras dessas comunidades somam 523.444,78 hectares, o que equivale a 58% do total de terras quilombolas já tituladas no Brasil.
Mesmo com as garantias Constitucionais de 1988, a titulação das terras identificadas como quilombolas só foram regulamentadas em 2003, com o decreto 4.887 do governo Lula. "A regulamentação foi um avanço, mas ainda sofremos com a truculência de alguns partidos que o julgam inconstitucional e querem revogá-lo", diz Maurício Paixão, do Centro de Cultura Negra do Maranhão (CCN).
Um dos avanços, segundo ele, é o orçamento específico para essas comunidades com a abertura de créditos. "Mas o governo dá com uma mão e tira com a outra. Se por um lado ele direciona essa verba, por outro os recursos não são executados, ficam inacessíveis", lamenta.
Um dos pontos polêmicos do decreto 4.887 é autodefinição. Segundo esse critério, a própria comunidade deve declarar-se quilombola. Mas conseguir a posse da terra não é tão fácil como possa parecer: a autodefinição é apenas o início de um processo complicado, que envolve identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação, desintrusão, titulação e finalmente o registro, que deve ser coletivo, em nome de uma Associação ou organização representativa.
A polêmica em torno da autodefinição se dá também pela confusão de termos, já que muitos vêem os quilombolas como originários diretos de quilombos. "A nossa Constituição não fala de 'originários'. O tradicional não pode ser em relação ao tempo, mas à maneira como lidam com a terra", diz o antropólogo Alfredo Wagner Berno.
O antropólogo explica também, que o uso da terra nas comunidades quilombolas é semelhante aos povos indígenas. "São também pescadores tradicionais, castanheiros, peconheiros, cipozeiros. É uma relação equilibrada com o ecossistema, por isso a área ocupada por eles são as mais verdes, as mais preservadas. São as comunidades tradicionais que mantêm a Amazônia, elas são um elemento preservador por excelência", finaliza.
Para esse fim, o projeto Nova Cartografia Social Brasileira mapeou mais de 750 comunidades no Maranhão, mais de 400 no Pará, quase 100 no Tocantins e dezenas no Amapá e no Amazonas, além de Rondônia. As próprias comunidades participaram do processo de construção dos mapas em toda a Amazônia.
No Amazonas, a toponímia denuncia a presença dos quilombolas em determinada região como no município de Parintins, nas proximidades de Oriximiná, onde situa a comunidade Mocambo, bem como em outros municípios, inclusive na própria capital do Estado, em Manaus, onde há uma extensa rede de parentesco entre as comunidades negras da Praça 14 de Janeiro, Seringal Mirim (Djalma Batista com São Geraldo) e o Morro do Tucumã (Morro da Liberdade).
Ainda no Estado do Amazonas, no Município de Novo Airão às margens do rio Negro, com 83 anos, Dona Maria Benedita do Nascimento, a Dona Bibi, conta que “teve que começar a vida do zero” depois de ser expulsa das terras em que nasceu, onde hoje existe o Parque de Preservação Integral do Jaú.
Ela, assim como outras famílias, em número de 200, vindos do Estado de Sergipe, foram expulsas da área que moravam desde 1907, desagregando a comunidade, identificada como quilombo do Tambor. No entanto, no dia 7 de julho de 2006 foram mapeados pela Fundação Cultural Palmares como quilombola.
Com esse reconhecimento, as famílias resolveram criar uma organização chamada Associação dos Moradores remanescentes de quilombo da Comunidade do Tambor-AM para reivindicar a titularidade das terras e as garantias de outros direitos como assistência à saúde, saneamento básico, educação e sustentabilidade.
- Postado por: Comissão Editorial às 08h25 PM
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