27/10/07
MIRATINGA

Quadro: Entry into the Forest de Portinari
CULTURA E DEMOCRACIA
A Fundação Perseu Abramo está completando 10 anos de atuação. Sua linha editorial destaca-se pelas publicações centradas na teoria política, no jornalismo investigativo, bem como nas coleções populares de obras de divulgação vinculadas diretamente com a realidade contemporânea brasileira.
Por isso, ao completar essa primeira década, a Editora em parceria com o Serviço Social do Comércio - SESC organizaram um ciclo de palestras e debates em São Paulo sobre questões relacionadas à democratização do acesso à cultura e a construção de algumas das tradições que marcam a produção cultural do Brasil.
O ciclo de palestras e debates inicia-se na terça-feira (30/10) sob o tema: Livros Cultura e Direitos no Brasil: como democratizar o acesso à leitura. Dessa mesa participarão Antonio Candido, Marilena Chauí e Luiz Dulci, tendo como mediador Tadeu de Pietro. Na quarta-feira (31/10) sob o tema: Comunicação Digital: a tecnologia vai democratizar as mídias? com a participação de João Brant, Marcelo Tas, B Negão e Cláudio Prado mediado por Cadão Volpato.
No último dia (1/11), o tema em discussão será A Síncope das Idéias: a MPB e a modernização da tradição da cultura brasileira, sob a mediação de Daniel Benevides e com a participação de Marcos Napolitano, Walnice Nogueira Galvão e Fabiana Cozza. O NCPAM agradece o convite e informa aos interessados que a realização do evento será no SESC Vila Mariana, na capital paulista, a partir das 19h30. Contato (11) 5080-3000.
NOTÍCIAS DA ALDEIA
De Itaituba, do Estado Pará, a jovem Ivanilda Karu Munduruku manda dizer que sempre o seu povo “está em busca de melhores condições, ainda recentemente no dia 05/09, houve reunião dos guerreiros Munduruku do Médio e Alto Tapajós na aldeia Praia do Mangue, junto com o representante da Fundação Nacional do Índio - FUNAI de Brasília, quando os guerreiros reivindicaram o pleno funcionamento da FUNAI na área, incluindo contratação de funcionários, estrutura adequado, principalmente, a reforma imediata do alojamento para abrigar o povo. Passados dias e noites, até hoje (25/10) não temos nenhuma resposta”.
Aqui, “estamos trabalhando com artesanato e cerâmica, está sendo muito legal. Mas, em novembro estarei indo para aldeia dentro da mata fechada, onde não se tem contato com as máquinas digitais, esse é o projeto que foi aprovado. Agora, vou cursar agroflorestal, durante 4 anos, isso vai ser ótimo porque nós estávamos precisando de alguém capacitado em nosso meio”, explica Karu, jovem guerreira dos Munduruku.
A SEMÂNTICA DA SUSTENTABILIDADE
O significado que tem se dado ao conceito de sustentabilidade é dos mais variados possíveis, como se pode compreender no discurso político regional, principalmente, em se tratando de promessas quanto à preservação da floresta como estratégia de combate ao aquecimento global. No Amazonas, o governador Eduardo Braga (PMDB) tenta implementar junto às comunidades tradicionais um projeto chamado de “Bolsa Floresta”, que pretende instalar nas comunidades o valor de troca – a lógica do capital – como instrumento conservacionista. Uma jogada perfeita para se justificar junto aos banqueiros internacionais a criação de um “Fundo Verde”.
No Estado do Pará, os encaminhamentos são outros, mas visam o mesmo fim, criou-se uma comissão executiva capitaneada pelo Banco da Amazônia, Fundação Vale do Rio Doce, Instituto Socioambiental entre outros, com a missão de “mobilizar lideranças dos diversos segmentos da sociedade, promovendo o diálogo e a cooperação para construir e articular ações visando a uma Amazônia justa e sustentável”. Na carta convite enviado aos sócios, principalmente, as representações das comunidades tradicionais, os executivos propõem “a criação do Fórum Amazônia Sustentável”.
O ato está agendado para os dias 5, 6, 7 e 8 de novembro, em Belém, no Centro de Convenções da Amazônia – Hangar, sob a seguinte recomendação: “o convite é pessoal e intransferível e que as despesas com transporte, hospedagem e alimentação serão pagas pela organização do evento. Portanto, necessitamos de sua confirmação urgente” , esclarece a comissão.
RACISMO NA ACADEMIA
Ganhador do prêmio Nobel de 1962, o biólogo James Watson (na imagem acima), 73 anos, em entrevista ao jornal britânico Sunday Times (16/10) afirmou que africanos são menos inteligentes do que ocidentais e em razão disso, se declarou pessimista em relação ao futuro da África. Para ele “todas as nossas políticas sociais são baseadas no fato de que a inteligência deles (os negros) é igual à nossa, apesar de todos os testes dizerem que não”. O cientista, não satisfeito, declarou ainda: “pessoas que já lidaram com empregados negros não acreditam que isso (a igual de inteligência) seja verdadeira”.
De imediato, a academia rebateu as manifestações racistas de Watson. “Isso é escandaloso”, disse Steven Rose, fundador da Sociedade para Responsabilidade Social em Ciência do Reino Unido. No Brasil, o repúdio partiu do geneticista da Universidade Federal de Minas Gerais, Sérgio Danilo Pena, quando afirmou a Folha de São Paulo (18/10) que “definitivamente, isso não faz sentido nenhum e é totalmente estapafúrdio”. Para o geneticista mineiro, Watson confunde uma situação histórica e social da África com uma situação biológica, “o que acontece é que os africanos foram vítimas de uma colonização brutal por parte dos europeus”, sentenciou.
- Postado por: Comissão Editorial às 08h27 PM
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25/10/07
JUDAS E A MALHAÇÃO DOS POLÍTICOS

* Ademir Ramos
A tradição vem de muito longe. Na antropologia cultural registra-se como um dos ritos das sociedades rurais do medievo, passando pela Península Ibérica e sendo reinventada por toda a América Latina.
No Brasil, sua manifestação era marcante na antiga capital da República, no Rio de Janeiro, onde o Judas tinha a configuração diabólica e em seu interior depositavam fogos pirotécnicos, provocando explosões com luzes coloridas seguido de muita gritaria e manifestações populares.
O fervor dos brincantes era tanto, que deixava a polícia desnorteada sem saber por onde começar a debelar o fogaréu. Resultando, dessa feita, na proibição da manifestação no centro urbano da antiga capital federal.
Na verdade, não era o fogo que incomodava, mas a picardia dos brincantes que ironizavam os políticos de então, fazendo sua malhação em praça pública.
Em Manaus, ainda se cultua essa prática, sobretudo no Bar do Cipriano, onde os políticos são malhados pelos justiceiros de plantão. No campo do catolicismo popular, São Cipriano é o santo da riqueza a quem os devotos entregam a alma para poder sustentar seus caprichos; no interior da Amazônia, Cipriano é o santo que arrebata a alma do fiel para o Demo, prometendo prazeres e riqueza.
No Bar do Cipriano pode-se apreciar o julgamento e às vezes até mesmo o testamento de Judas. No ano que passou, a peça jurídica escrita por um dos bacharéis que freqüenta a mercearia tornou-se apócrifa tal como ocorre também no Bar do Armando. A estratégia dos organizadores é para se proteger das retaliações dos políticos profissionais e dos seus aduladores.
Se o Cipriano é o santo do Demo, não se sabe, mas, que a malhação de Judas tira o sono dos políticos é inteiramente verdade. Em Manaus, o evento está ganhando corpo na periferia, como podemos observar no pós-semana santa do ano em curso.
A manifestação é acolhida pelos moradores, ganha visibilidade na imprensa e passa ser também um puxão de orelha no político oportunista, que faz pouco caso pelos interesses do povo, representando muito mais os ganhos dos poderosos.
Pelo que se sabe, no Amazonas, a malhação do Judas, ainda não conta com incentivo fiscal, sendo uma iniciativa popular. Passado a Semana Santa pudemos ter acesso ao testamento apócrifo do Judas, que enuncia sua condição humana, sua herança e promessa.
Os termos lavrados em prosa dão conta que ali jaz um traidor do povo, que por muitos partidos já passou; buscando riqueza, poder e bem estar para si. A peça vestibular dá conta que seu julgamento deve ser lembrado para que outros oportunistas não venham imitá-los, fazendo de conta que vão exercer o mandato e depois ocupam cargo no executivo.
O testamento é longo, mas pode ser sintetizado, quanto à defesa que se faz a democracia participativa, a desconcentração do poder em forma de políticas publicas de qualidade, oferecendo ao povo do Amazonas, novas oportunidades de trabalho, emprego e renda.
Quanto às promessas o testamentário declara que basta de enganação de documento em cartório, em época de eleições, o fato é que as promessas não foram seguidas de gestos concretos, deixando o povo muito mais no medo da insegurança do que na esperança da seguridade social.
O testamento de Judas pode ser uma ficção, mas, bem que poderia servir de objeto de análise para o cidadão ver, julgar e agir com foco nas próximas eleições para Prefeitura e Câmara Municipal.
Agora me responda, quem você gostaria de execrar em praça pública tal qual o Judas? – Os vereadores, o Prefeito do seu Município, o taberneiro da esquina que lhe afronta nos preços cobrados na caderneta, sua sogra que controla muito mais você que a(o) consorte, os magistrados por não operarem a Justiça com eficácia e determinação, o Ministério Público Estadual que perdeu a soberana vontade de ser articulação popular, transformando-se na apêndice do Governo, o delegado de polícia arbitrário e arrogante ou o próprio Governador do Estado junto com a direção da Assembléia Legislativa do Estado pelo descaso como tratam a coisa pública.
O Judas é apenas uma metáfora, mas a sua indignação deve ser permanente. Portanto, transforme esse sentimento numa atitude crítica capaz de mobilizar forças para promover efetivamente a mudança. Pois, esteja certo que para melhorar é preciso participar.
*Antropólogo, Professor da Universidade Federal do Amazonas-UFAM e Presidente do NCPAM. Contato: ncpamz@gmail.com
AVISO: O artigo publicado com assinatura é de responsabilidade exclusiva de seu autor.
- Postado por: Comissão Editorial às 05h40 PM
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23/10/07
INDIANARA

* Ademir Ramos
Jovem indígena Baniwa, brasileira, falante do nheengatu, habitante do Rio Içana, região do Alto Rio Negro, Noroeste do Amazonas. Quando criança com apenas oito anos de idade foi levada para o internato das meninas sob as ordens das religiosas salesianas, onde foi proibida de falar sua própria língua, sendo obrigada a falar e ler em português.
Na missão salesiana, a jovem Baniwa aprendeu também a cozinhar, a passar, a lavar... prendas do lar. Assim, encantada pelas facilidades que a cidade apresentava, aceitou a recomendação das religiosas para trabalhar na casa de um militar graduado que servia na fronteira, com a promessa de quando a família voltasse para Manaus, a capital do Amazonas, ela viria para morar com eles.
Passado os quatro anos de serviço, a família retornou a Manaus, trazendo em sua companhia a jovem Indianara, com 16 anos de idade, que servia para cuidar das crianças, passar, cozinhar e cuidar da casa. Ofício que aprendeu no internato religioso.
Em Manaus, a jovem Baniwa começa a sofrer todo tipo de discriminação e preconceito. Nesse momento, ela começa a ir ao encontro dos parentes na periferia de Manaus e percebe que é apenas mais uma nessa multidão. O pior de tudo, é que ela e eles têm um diferencial que são as marcas visíveis de uma cultura tribal escrita no rosto, nos cabelos, na pele, no falar.
Por isso, buscam dissimular, pintando os cabelos, afirmando que são peruanos bolivianos. Mas, nada resolve. A discriminação continua. A dor continua. A solidão aperta o peito, fazendo com que se lembre dos momentos felizes de sua infância lá no médio Içana, onde nem ela sabia que era índia. Pois, foi o missionário que, apontando, disse: você é índia! A partir de então, passou a se identificar com esse nome, sendo batizada depois como Indianara.
Na cidade de Manaus, sendo abandonada pela missão, desempregada, sem casa e comida aceita qualquer coisa para satisfazer suas necessidades. O caminho é a prostituição. No entanto, mesmo doente continuava escrevendo suas cartas para mãe, contando as maravilhas da cidade - Manaus - dissimulando o seu estado de vida. Conheça a mensagem de uma das cartas, datada de 20 de janeiro de 1978.
Senhora Mamãe,
Espero que esta carta encontre todos com saúde. Aqui na cidade, estou cada vez melhor, já tenho casa, televisão, fogão e geladeira. Estou vendo se encontro outro trabalho pra ver se dá pra mandar alguma coisa pra aí. Ainda não dá, porque aqui tudo é diferente. O bom é saber que posso voltar, não sei quando, e encontrar todo mundo. Lembro das brincadeiras na roça, quando cuidava da terra para plantar a maniva. Todo mundo pode ir embora, mas a terra fica sempre esperando pela gente, seja para viver ou para cair morto. Ainda vou voltar para fazer cerimônia e ficar em paz com todos na terra que me viu nascer.
Lembrança pra todos e diga que estou bem. Da filha,
Indianara
*Antropólogo, Professor da Universidade Federal do Amazonas-UFAM e Presidente do NCPAM. Contato: ncpamz@gmail.com
AVISO: O artigo publicado com assinatura é de responsabilidade exclusiva de seu autor.
- Postado por: Comissão Editorial às 05h29 PM
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21/10/07
Especial Mirante do Cotidiano

Foto: Otoni Mesquita
Beleza fascinante,
A tua história exalta
A força da tua gente.
Cidade de homens,
Mulheres e crianças,
Entre rios e florestas,
No coração da Amazônia.
Não é só minha, nem tua,
É nossa.
Ademir Ramos
A Cidade tem sido para os homens o cantinho do mundo. Nesse território, os homens passaram a construir espaços e instituir relações de forma estruturantes capazes de definir sua cultura e identidade, fazendo-se reconhecer por seus valores e práticas circunscritos e determinados historicamente.
A organização política das Cidades modernas centradas no antagonismo entre o capital e trabalho tem gerado perversa desigualdade social, promotora de exclusão e estigmatização entre os homens, que por sua vez, integram-se de modo diferenciados à sociedade urbana.
Em “A situação da classe trabalhadora na Inglaterra”, Engels constata que “todas as grandes cidades possuem um ou vários ‘bairros de má reputação’ – onde se concentra a classe operária. É certo que é freqüente a pobreza morar em vielas escondidas, muito perto dos palácios dos ricos, mas, em geral designaram-lhe um lugar à parte, onde ao abrigo dos olhares das classes mais felizes, tem de se safar sozinha, melhor ou pior”.
A nossa Manaus não é diferente, seus governantes pouco ou nada fizeram para minimizar a desigualdade e muito menos combater a alienação cultural implantada nesse território à margem esquerda do rio Negro circundado pelo verde da floresta. Fundada a mando do capitão Antônio Albuquerque Coelho de Carvalho, então governador do Maranhão e Grão-Pará, em 1669, data em que se inicia a construção da Fortaleza de São José do Rio Negro sob a lógica geoestratégica dos colonizadores portugueses.

Mas, “a importância de sua situação na confluência dos grandes rios, que dispõem as três divisões naturais da Comarca, e a constitui o entreposto do Solimões e Rio Negro, proporcionou-lhe pompto engrandecimento, que cresceu de prompto com a sabia determinação do Governador da Capitania, Manoel da Gama Lobo d’Almada, de transladar para este lugar a Capitania, em 1790, que até então fora em Barcelos”, assim registra, em seu “Dicionário Topográfico, Histórico, Descritivo da Comarca do Alto Amazonas”, de 1852, Lourenço da Silva Araújo e Amazonas.
Registra-se também, entre tantos golpes tramados contra o Governador Lobo d’Almada e, indiretamente contra o povo da Fortaleza, popularmente chamada de Lugar da Barra do Rio Negro, promovidos pelo Governador D. Francisco de Souza Coutinho, o derradeiro foi à ordem lavrada na Carta Régia de 2 de agosto de 1798, para transladar a sede da Capitania a Barcelos, o que motivou a decadência do Lugar da Barra.
Passado os anos, com a explosão da Cabanagem (1835 a 1839) instaura-se definitivamente na região uma instabilidade econômica perturbando toda ordem imperial na Amazônia. Nessa conjuntura, em 08 de abril de 1839, o general português Francisco José de Souza Soares Andréia, em passagem de cargo ao seu sucessor, o juiz de direito, Bernardo de Souza Franco, afirmara que: “nestá província está restabelecida à ordem depois de três anos de continuados esforços e fadigas”.
No entanto, segundo o sociólogo Di Paolo, em sua obra “Cabanagem: a revolução popular da Amazônia”, registra-se também, o alerta do truculento general Andréia, sobre algumas exceções: “no Amazonas e seus distritos, só se pode conservar a paz com as armas na mão, particularmente no Rio Madeira, onde os índios não estão completamente obedientes”.
Sem muita escolha, o Presidente da Província do Pará Souza Franco solicita do Governo Imperial “anistia excepcional” para resgatar a legalidade. Esta, por sua vez, foi concedida por meio do decreto de 4 de novembro de 1839, o que levou vários grupos cabanos a depor as armas, como fizeram os índios do Alto Amazonas, que optaram pelo fim da hostilidade.

Com fim da cabanagem, a Província timidamente reinicia um novo ordenamento institucional baixando novos atos, como a elevação de Manaus à categoria de cidade nomeada como Cidade de nossa Senhora da Conceição da Barra do Rio Negro, através da lei nº 145, de 24 de outubro de 1848.
Em seu aniversário exige-se respeito dos governantes quanto ao tratamento dado à Cidade e ao seu povo, na perspectiva de se construir efetivamente uma relação socialmente justa e culturalmente sustentável.
Parabenizamos a nossa querida cidade de Manaus!
- Postado por: Comissão Editorial às 06h18 PM
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