2/2/08
MIRATINGA

Por um Mundo Melhor
De imediato, perguntam-se as razões que move um cidadão a candidatar-se a uma vaga para o exercício do mandato parlamentar ou para o executivo. Em tese, as regras eleitorais no Brasil permitem que qualquer um possa se manifestar submetendo o seu nome às convenções partidárias. Nesse primeiro momento, a seleção dos candidatos resulta das conveniências das lideranças dos partidos. Feito esse referendo, os candidatos começam “a se virar” para empinar sua candidatura junto aos eleitores, valendo-se de diversas artimanhas sob orientação de marqueteiros ou não, na tentativa de convencer o eleitor de que ele é o melhor para resolver os problemas coletivos e comunais daquela população.
Dessa feita, o eleitor ganha importância, podendo articular força para fazer valer direito ou interesses imediatos, barganhando da dentadura até o emprego, tudo em troca do voto. É nessa hora que os candidatos começam a falar sobre suas obras ou quando não se fazem de morto, de coitadinhos, dizendo que esperam que o povo deposite neles sua confiança.
Num estado de perversa desigualdade, assim como vive a maioria do povo brasileiro, em particular os amazonenses, a cidadania se reduz aos interesses imediatos, visando suprir necessidades existenciais. Nessa disputa, ganham vantagem os candidatos que operam como agente mercantil, contando com o suporte da máquina governamental, do poderio das construtoras, dos fornecedores e de outros atores.
A classe média, por sua vez, que deveria ser a mais atuante no contexto da sociedade, encontra-se agachada, sem autonomia para reivindicar políticas sociais efetivas que promovam justiça social e distribuição de renda. Assim sendo, suas práticas tornam-se despolitizadas quanto aos debates e as críticas sociais, permitindo que os justiceiros políticos se apropriem do poder e aterrorizem o povo. No entanto, o silêncio e a omissão dos agentes da classe média podem ainda custar o seu próprio status, degenerando o tecido social e criando convulsões insustentáveis em beneficio do populismo e do autoritarismo.
Ao contrário, as eleições devem criar campos favoráveis para se discutir e avaliar as competências e habilidades dos candidatos quanto às demandas sociais, definindo com objetividade suas estratégias de atuação e os meios necessários para consecução dos objetivos a curto e longo prazo. A avaliação dos candidatos deve ser feita coletivamente e a vontade do eleitor deve se manifestar nas urnas.
Essa tem sido a nossa trincheira de luta e queremos ampliar ainda mais, contando com a participação daqueles que acreditam que um mundo melhor é possível e, portanto, façamos acontecer.
O Pensar Complexo
Trata-se de uma coletânea de textos organizados por Alfredo Pena-Veja e Elimar Pinheiro de Almeida, sob o título “O pensar complexo: Edgar Morin e a crise da modernidade” (1999). Da obra, destacamos a própria fala de Morin quanto à Reforma do Pensamento, que é um chamado para a construção de um novo paradigma fundado na relação construtiva capaz de sustentar diferenças e reunir propósitos porque, segundo ele, “o pensamento complexo é o pensamento que se esforça para unir, não na confusão, mas operando diferenciações. Isto me parece vital, principalmente na vida cotidiana [...]”.
Tudo isso deve nos levar, afirma o professor Morin, a chave do problema, que é a reforma paradigmática. E assim, formula uma de suas conclusões sumárias, que “dito de outro modo, o nível paradigmático é o núcleo forte que comanda todos os pensamentos, todas as idéias, todos os conhecimentos que se produzem sob o seu império. E, de alguma forma, o paradigma dominante até hoje, que começa a ficar um pouco combalido, era um paradigma da disjunção e da redução. Queremos conhecer separando, ou desunindo, a ciência, a filosofia, a cultura literária, a cultura científica, as disciplinas, a vida, a matéria, o homem, etc. Desunimos, separamos o inseparável, sem lembrar que o homem tem um espírito, mas este espírito está ligado ao cérebro: tudo está relacionado”.
- Postado por: Comissão Editorial às 11h07 AM
[ ]
[ envie esta mensagem ]
31/1/08
CADERNO DE CAMPO DE SANTA ISABEL DO RIO NEGRO

* Ademir Ramos
Ainda bastante resfriado, com uma tosse de cachorro velho, as duas salas reuniram-se no dia 16 de janeiro, para que pudesse orientar os formandos do Curso Normal Superior da Universidade Estadual do Amazonas (UEA), em Santa Izabel do rio Negro, a respeito de “material e método”, recorrendo ao ensinamento da pesquisa ministrado em aulas anteriores. Não se trata de teorizar, mas, de identificar o que, por que e como estão procedendo nas análises dos problemas, visando à elaboração da monografia.
Dessa feita, referenciado no texto da UEA fiz uma exposição sobre a Dialética, Indução e a Dedução sem muito esforço teórico, para qualificar as práticas clássicas do ordenamento da pesquisa e a sustentação da análise do problema. Além desses enfoques - platônico e aristotélico, procurou-se trabalhar os “métodos de procedimentos” com base no texto básico, que o define como enfoques positivistas e neopositivistas, incluindo entre este último o antropológico, hermenêutico e o crítico-dialético.
Essa exposição, na verdade, visa clarificar os procedimentos que os alunos aplicaram na pesquisa quanto ao diagnóstico que eles fizeram em suas escolas. O que deveria ter sido feito antes para que melhor pudessem investigar e compreender os fenômenos. No entanto, como estamos trabalhando por capítulo estamos “refrescando a memória” dos alunos para que nesse momento possam iniciar a formatar a análise da pesquisa, tendo clareza dos procedimentos metodológicos trabalhados.
Anteriormente, os formandos se dedicaram a “fundamentação teórica”, quando recorreram às leituras “garimpando” citações para dar corpo ao seu trabalho, sem muito se preocupar com as concepções desenvolvidas pelos autores. Feito isso, depois eles passaram a “encaixar” no texto que estão construindo, conforme eles mesmos definem.
Quanto ao método, a preocupação também está voltada mais para os procedimentos técnicos do que para a concepção teórica que o ampara. E assim vai se construindo um determinado corpo monográfico “positivista”, primando mais pela forma do que pelo embate das idéias. Pode parecer estranho, mas como ensaio, torna-se uma realidade embrionária, que suscita no aluno determinada disciplina acadêmica, podendo, quem sabe, conduzi-los a uma leitura substantiva da realidade em foco, movido pela sede de saber e de se produzir novos conhecimentos.
O Curso Normal Superior promovido pela UEA tem como público alvo os professores da rede pública de ensino, que por sua vez, devem ser municiados a pensar, analisar suas próprias práticas pedagógicas, almejando o desenvolvimento de suas competências, bem como a melhoria do ensino em beneficio dos próprios alunos.
No curso das explicações, quando se falou dos procedimentos antropológicos, destaquei sobremaneira, a estreita relação entre educação e cultura, principalmente, em se tratando das áreas onde a densidade indígena é relevante. Pois, parte-se do postulado que a escola deva ser contextualizada capaz de promover de forma dialógica o saber tradicional e conhecimento das ciências, sem desqualificar os valores tradicionais em nome da modernidade.
À tarde às 15h participei do encerramento do curso de Agente Comunitário de Saúde, contando com a participação de 32 agentes indígenas formadas nesse primeiro módulo, dessa etapa inicial. Em conversas com os “parentes” pude notar a motivação dos agentes, que receberam um kit de fardamento com mochila e um motor rabeta para se deslocarem pelos rios na assistência aos comunitários.
O café da manhã pela 7h é bem farto, quando tem fruta é servido abacate, açaí, tucumã ou banana. O café fica a disposição, sendo conservado em garrafas térmicas, podendo ser temperado com leite Ninho em pó, a gosto do consumidor. Na mesa, às vezes temos tapioquinha enrolada passado na margarina, fatias de queijo cortadas, bolo de macaxeira, bolo de farinha tapioca, banana frita em forma de moeda e quando se quer pode pedir ovos fritos de galinha que vem meio aguado mais é de bom tamanho para repor as energias. O lugar de referência para uma boa refeição em Santa Izabel é o restaurante da Dona Lica, o melhor na comida e na colhida.
No dia 17/01 passamos a monitorar o trabalho dos alunos, acompanhando etapa por etapa da elaboração da monografia, explicando item por item da elaboração da monografia. As professoras assistentes Esteli e Maria de Jesus são dedicadas e pacientes, dando muita atenção aos alunos. No entanto, no final de cada dia se faz uma pequena avaliação e quando possíveis novos encaminhamentos são feitos, sempre motivando os alunos a superar os entraves encontrados nessa caminhada de formação.
Na sexta-feira (18/1), acordei pela madrugada com os foguetes anunciando a chegada e a partida do barco com destino a Manaus, levando cargas e passageiros. Na sexta e terça-feira tem avião que passa por Santa Izabel e vai até São Gabriel da Cachoeira e em seguida rumo a Manaus.
Nesta Sexta resolvemos ficar direto, pois os alunos estão em fase de conclusão, indo até às 20h na Escola. Ainda pela tarde, esqueci de relatar, recebi a presença do Secretário de Educação do Município, professor Aloísio Oliveira, a quem apresentei uma proposta de criação do Centro de Culturas e Línguas Indígenas, primando pela pesquisa de resultado para o fortalecimento das organizações indígenas do município, bem como a valorização das línguas, em particular a Língua Geral rio Negrina. Como sou otimista radical, acredito que essa iniciativa possa dar certo, em parceria com o Instituo Amazônia e o Núcleo de Cultura Política do Amazonas/UFAM, contando com o referendo da Prefeitura local.
No sábado (19/1), voltamos a Escola para dar continuidade aos trabalhos, relendo as anotações e recomendando que na segunda, gostaríamos de conferir os avanços. No final da manhã, às 12h fizeram-me uma surpresa. Um rito de saudade, quando prestaram homenagem por estar viajando na terça-feira (22/1). O ato contou com a fala do senhor Secretário de Educação, recital de poesia e o canto da embolada de autoria da aluna Lucinete Santos Cruz. E em seguida um grande banquete preparado pelos alunos, satisfazendo a todos.
No dia 19 à noite fui ao Arraial de Santa Inês, quando participamos da dança do Gambá (correrê), 4 senhores de idade, tocando as caixinhas e cantando em língua indígenas, canções marcadas quase sempre no mesmo compasso, parecido com que vi entre os sateré-mawé do rio Andirá, respeitando as especificidades. Tudo isso regado com muito vinho, a mim foi servido um cálice. No ato também, encontramos os alunos com suas famílias.
No domingo (20/1) acordei cedo tomei café e fui a primeira missa na matriz, que começa às 8h30. O ato foi celebrado pelo padre Manoel, que segundo relato, recorreu ao arcebispo de Manaus para que a Arquidiocese ajudasse na Evangelização. No momento, faz-se presente no município grupos de casais de Manaus auxiliando o pároco no processo de evangelização. Esses, por sua vez, visitam casa por casa em cumprimento ao “mandato divino”. Em Santa Izabel a concorrência entre os santos é grande, São Sebastião deixou de ser celebrado no dia 20, por motivo das homenagens a Santa Inês. Possivelmente, quem sabe, seja celebrado no próximo final de semana.
Na segunda-feira (21/1) voltamos a Escola para os últimos acertos junto aos alunos e ao mesmo tempo fortalecer cada vez mais o trabalho da professora Esteli Pinto e Maria de Jesus Machado, porque são elas na verdade, que operam esse sistema da UEA/PROFORMAR, assim como todos os professores assistentes que atuam nos pólos de formação nos municípios. Nesse momento, nós professores-orientadores devemos controlar a ansiedade dos alunos e redirecionar suas ações para o término dos trabalhos.
Da minha parte, torço para que a professora Suely da Silva Rocha, que foi designada para Tabatinga a fazer esse mesmo trabalho de orientação, como também, a professora Jocilene Gomes, designada para São Gabriel da Cachoeira, tenham-se integrado a equipe local, conforme recomendação feita, e concluído a missão com o mesmo sucesso que alcancei em Santa Izabel do Rio Negro.
* Coordenador Geral do NCPAM, professor e antrópologo da UFAM. Contato: ncpamz@gmail.com
AVISO: O artigo publicado com assinatura é de responsabilidade exclusiva de seu autor.
- Postado por: Comissão Editorial às 12h56 PM
[ ]
[ envie esta mensagem ]
29/1/08
EDUCAÇÃO ESCOLAR DOS YANOMAMI
 Foto:Nonato Oliveira
Ismael Monteiro Rodrigues*
A Escola Estadual Indígena “Sagrada Família” situada a 300 km da sede do município de Santa Izabel do rio Negro, a noroeste do Amazonas, no rio Marauiá, a margem esquerda do rio Negro, iniciou suas atividades na década de sessenta na área Yanomami, com a chegada dos missionários salesianos sob o comando do padre Antônio Góes, sendo o primeiro a promover a alfabetização na língua portuguesa desse povo.
A Educação Escolar Yanomami, iniciada em 1962 pela missão salesiana, tinha por fim ensinar esse povo a ler e escrever em português, segundo a política de integração nacional. Nessa perspectiva, tentaram inclusive, mandar alguns adolescentes a virem estudar na sede do município.
O fracasso dessas primeiras experiências levou as mudanças radicais quanto à forma de abordagem das práticas educacionais junto aos Yanomami. Nesse momento, foi quando os missionários optaram por um trabalho educativo que tivesse como base a língua materna e de acordo com as necessidades da própria comunidade. Para o cumprimento desses objetivos fazia-se necessário a elaboração de material didático próprio, contando com a participação dos próprios Yanomami.
Assim sendo, em 1970, a Escola obteve sua aprovação legal sob o registro “Escola Sagra Família”, conforme os termos do Decreto 124/70. No ano seguinte, foi criada a Unidade Educacional Dom Pedro Massa amparado no Decreto 2064/71, que incorpora a Escola da Missão nesse novo processo administrativo do Estado.
A Escola “Sagrada Família” na área dos Yanomami sempre se dedicou ao ensino fundamental. Em 1981, tendo a frente os irmãos Laudato, missionários salesianos, passaram-se a produzir os seus próprios materiais didáticos com ajuda dos alunos Yanomami.
Finalmente, no início da década de noventa, os selesianos inspirado na experiência desenvolvida no Alto Orenoco, na Venezuela, resolveram optar definitivamente por uma Escola que fosse intercultural, bilíngüe e diferenciada. Essa decisão foi influenciada também, pela legislação brasileira, que progressivamente vem favorecendo a implantação de uma Escola cada vez mais com identidade própria, resultante das lutas das organizações indígenas pela valorização de suas culturas, línguas, costumes e história.
* Professor e graduando do curso Normal Superior da UEA, em Santa Izabel do rio Negro, 2008. contato: ncpamz@gmail.com
AVISO: O artigo publicado com assinatura é de responsabilidade exclusiva de seu autor.
- Postado por: Comissão Editorial às 01h13 PM
[ ]
[ envie esta mensagem ]
27/1/08
MIRANTE DO COTIDIANO
 Foto: Ademir Ramos
No Brasil e, em particular na Amazônia, a diversidade cultural é relevante por razão da expressiva população indígena nesse território. No Amazonas, ainda hoje, essa manifestação é expressiva por todo o Estado, principalmente, na área do rio Negro, que logo após viver sob a exploração do extrativismo da borracha por mais de 90 anos. É subordinado por meio dos Internatos as estratégias políticas de portugalização implantadas pela Missão Salesiana, a partir de 1914, reduzindo e desestruturando as organizações das culturas e as línguas indígenas, com a mesma determinação colonial do Diretório Pombalino.
A presença do professor e antropólogo Ademir Ramos, em Santa Izabel do rio Negro, fez com que retomasse suas pesquisas sobre os Internatos, enquanto instituição total, capaz de promover a redução do homem às estruturas de domínio da cristianização como processo civilizatório. Assim sendo, coletou vários depoimentos de ex-alunos dos Internatos, em particular o de Maria Potyra (44), que publicamos nessa edição para dar visibilidade a história da educação do rio Negro e, sobretudo, a resistência dos povos indígenas.
O depoimento abaixo foi redigido por uma ex-aluna, a quem por medida de segurança foi atribuída um nome fictício para efeito de publicação, confira:
Estudei no colégio, na época do internato e lá criaram uma etnia para mim chamada Baré, a qual nem sequer questionei porque não entendia muito bem. Chegando meus pais, perguntei o que significava ser Baré, eles me explicaram que Baré seria a tribo do meu avô, mas eles não tinham certeza, porque o meu pai veio fugido da Venezuela na época da guerra. Me lembro, que ele falava tudo errado, em vez de terçado, dizia traxado, cipó – xipó e outros.
O pai da minha avó era Tariano e a mãe era Dessana. Os pais da minha mãe, os dois eram Tukano. Depois dessa conversa com os meus pais, fiz uma reflexão, pude constatar que a etnia Baré foi colocada apenas pra preencher uma ficha lá no internato. Então, não se trata de trocar, mas, de assumir a minha verdadeira identidade que é dos meus avós paternos, os Tariano.
Por isso, como herança deles falo a língua nheengatu do qual, tenho bastante orgulho. iarykú, mukuim yané ruyxa, puranga yasemos taruri yané yrum . Estou dizendo: nós temos dois chefes (professores), são bons e alegres conosco.
Um pouco da minha história, eu sou E. S. G. do povo Tariano.
Fui interna na escola Santa Izabel durante quatro anos e meio, não completei os cinco anos. Nesse tempo que vivi no colégio, aprendi muitas coisas boas da realidade da gente “branco”, como: expressar, andar, ter responsabilidade. Eu achava que tudo era muito correto.
Lá no colégio tudo era dentro do horário e determinado desde ao acordar, com palmas e oração às 6h da manhã, logo se fazia os ofícios, cada uma das 85 internas fazia o seu, em seguida descia para o porto para tomar banho, depois saindo para trocar de roupa “farda” para irmos ao refeitório tomar “café”, logo em seguida pegava os livros na sala de estudo, tudo pronto - tarefas e lições, em seguida para o bom dia, no salão e depois para a sala de aula. Até às 9h da merenda, quando retornávamos novamente até às 11h30, quando saíamos para o almoço, todas andavam num silêncio, oração e depois almoçávamos.
Ainda me lembro hoje de muitas coisas com saudades e outras quando lembro, minhas lágrimas caem no chão. Sou grata há certas irmãs por diversas razões, outras nunca deveriam ter conhecido e para infelicidade, uma delas tinha o meu próprio nome.
O motivo pelo qual não quis mais retornar ao internato foi que, antes das férias, após o almoço, eu senti que perdi minhas pernas e ficamos chorando.
Logo, fomos para as férias, quando foi para voltar, tudo passava em minha mente. Então, não voltei e fiquei morando com uma professora e cuidando do seu filho.
Lá elas foram pedir para que eu voltasse ao colégio, sinceramente não voltaria nem amarrada. Olha, quase todo dia elas me conversam, fazendo tudo para que eu esquecesse aquilo que aconteceu.
Mas vou deixar bem claro, o índio ele (a) pode ser: bom, alegre, bobo, humilde, carinhoso, amável, amigável, pacato, delicado, até um certo momento porque é assim que somos . Mas, não faça nada que o magoe depois. Pois, o sangue selvagem esquenta - sai da frente, porque vem “bicho” podendo até te engolir vivo, fica surdo, mudo com muita raiva, às vezes esquece que tem formação.
Assim a vida foi passando, mas não deixamos os nossos costumes. Assim, como: repartir com os amigos os alimentos, frutos, e outras formas de compartilhar, ajudando sempre quem precisar.
Íamos à roça, cada uma levando a sua enxada. Na roça, capinávamos aquele matagal e outros, e lá havia um panelão de chibé. Quer dizer farinha molhada com água. Nesse dia, falei para as colegas porque a maioria falava nheengatu: sê amúm aytá yasuana, yaú yanê chibé, acó que penhém pê ysi pê kú. Ygsuana aytá usuaxára. Eu disse: “minhas irmãs vamos beber chibé, sei que vocês estão com sede”. Nem passava pela minha mente que aquilo ali seria para mim o final de tudo.
Quando foi no dia seguinte à diretora nos chamou e falou que era proibido falar qualquer língua no colégio, a não ser a língua portuguesa.
Ela falou tanta coisa que nos deixou de castigo por uma semana. Com isso, fiquei tão ofendida, por ela ter levado tudo que falei na roça como algo que ofendesse a imagem das irmãs, o que me ofendeu foi o fato da irmã assistente, que nos chamou e abriu a porta, dizendo bem assim, - “Nós não fomos buscar nenhuma de vocês em suas casas, portanto a porta está aberta, assim como vocês entraram, vocês podem sair”.
Tudo isso aprendi com os meus avós, depois com os meus pais e assim passo esses ensinamentos para os meus filhos. O que somos não é a língua portuguesa que falamos, muitas vezes incorreta, que vai fazer que sejamos brancos ou que não tenhamos etnia. Fico indignado com as pessoas que não assumem a sua identidade. E outras pessoas que não tem etnia querem ter uma, isso é agora, porque durante vários anos fomos ignorados. Isso, já perdoei, já passou.
Depois de várias assembléias (do movimento indígena) realizadas no município de Santa Izabel, o povo passou e continuou a valorizar mais as nossas culturas e isso nos deixa alegres, porque tornamos a ser felizes.
Kuiry ixé pecaturetê o paywé yawe açu asenuim indé.
Agora digo: obrigado professor.
- Postado por: Comissão Editorial às 07h55 PM
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|